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A Região de Lindóia

ÁGUAS DE LINDÓIA é uma cidade, LINDÓIA é outra. Estão a 4KM de distância uma da outra!

A Cidade de ÁGUAS DE LINDÓIA

Localizada no interior do estado de São Paulo, é uma cidade famosa por suas águas minerais com propriedades terapêuticas e por sua relevância no turismo de saúde. Sua história é marcada pela valorização de suas fontes de água e pelo desenvolvimento de um polo turístico que se tornou conhecido em todo o Brasil. Vamos explorar o surgimento e o crescimento dessa cidade charmosa e importante.

Origens e Primeiras Descobertas

A história de Águas de Lindóia começa no início do século XX, quando a região ainda fazia parte de terras desabitadas e selvagens. A fama das águas da região, no entanto, remonta ao século XIX, quando tropeiros e viajantes descobriram as fontes naturais de água e relataram seus supostos efeitos benéficos à saúde. Na época, as águas já eram usadas por moradores e viajantes que acreditavam nas suas propriedades medicinais, especialmente para tratar problemas renais, digestivos e de pele.

O grande marco na história da cidade ocorreu em **1909**, quando **Dr. Francisco Tozzi**, um médico italiano, chegou à região e começou a estudar as propriedades medicinais das águas locais. Dr. Tozzi, convencido de que as águas tinham efeitos terapêuticos, fundou um balneário em 1916, dando início à exploração sistemática das águas de Águas de Lindóia. Ele foi um dos principais responsáveis por transformar a região em um centro de cura e tratamento por meio da hidroterapia.

Crescimento e Desenvolvimento Urbano

Com o sucesso das primeiras iniciativas de hidroterapia, a fama de Águas de Lindóia se espalhou, atraindo pessoas de várias partes do Brasil e até do exterior em busca dos benefícios das águas. O balneário de Dr. Tozzi tornou-se um polo de saúde, e, ao redor dele, uma pequena vila começou a se formar.

Em 1938, Águas de Lindóia foi elevada à condição de distrito pertencente a **Lindóia**, outra cidade famosa pelas águas minerais. No entanto, o rápido crescimento e a crescente demanda por tratamentos de saúde impulsionaram o desenvolvimento urbano da região.

Finalmente, em **16 de novembro de 1938**, Águas de Lindóia foi emancipada e tornou-se um município independente, com sua economia fortemente baseada no turismo de saúde e na extração e comercialização de suas águas minerais.

Turismo de Saúde e a Fama das Águas Minerais

Com a emancipação, Águas de Lindóia consolidou sua posição como um dos principais destinos turísticos do Brasil voltados para a saúde e bem-estar. O balneário fundado por Dr. Tozzi foi ampliado e modernizado, oferecendo tratamentos de hidroterapia, banhos termais, massagens e outras terapias baseadas no uso da água mineral.

As propriedades terapêuticas da água de Águas de Lindóia se tornaram amplamente conhecidas e passaram a ser recomendadas por médicos e especialistas para o tratamento de várias doenças, especialmente problemas renais, reumatismos e doenças de pele. A cidade passou a atrair turistas e pacientes de todas as partes do país, em busca dos supostos benefícios curativos das águas.

Além disso, a água mineral de Águas de Lindóia começou a ser comercializada em larga escala, com várias empresas engarrafando e distribuindo a água para o mercado nacional. A qualidade e pureza da água mineral da cidade foram fatores decisivos para seu sucesso, e até hoje Águas de Lindóia é uma das principais produtoras de água mineral do Brasil.

Circuito das Águas Paulista

Águas de Lindóia faz parte do famoso **Circuito das Águas Paulista**, uma rota turística que inclui outras cidades conhecidas por suas águas minerais, como **Serra Negra**, **Socorro**, **Lindóia**, **Amparo** e **Monte Alegre do Sul**. Essas cidades, localizadas na Serra da Mantiqueira, atraem turistas que buscam tratamentos de saúde, relaxamento e contato com a natureza.

O Circuito das Águas tornou-se uma importante rota turística no estado de São Paulo, ajudando a promover Águas de Lindóia como um destino de destaque para quem busca bem-estar e lazer.

Eventos Históricos Importantes

A cidade também tem um papel na história política e militar do Brasil. Durante a **Revolução Constitucionalista de 1932**, Águas de Lindóia serviu como ponto de apoio logístico para as tropas paulistas que combatiam nas proximidades, devido à sua proximidade com a divisa de Minas Gerais.

Além disso, em 1969, Águas de Lindóia teve um momento de destaque no cenário político internacional, ao ser o local escolhido para a realização da **Conferência da OEA (Organização dos Estados Americanos)**. O evento reuniu líderes e diplomatas de vários países das Américas para discutir questões políticas e econômicas da região.

Atrações Turísticas e Belezas Naturais

Hoje, Águas de Lindóia é um dos principais destinos turísticos de saúde do Brasil, com uma infraestrutura completa de hotéis, pousadas, clínicas e balneários. O **Balneário Municipal**, com suas águas termais e serviços de hidroterapia, continua a ser um dos principais atrativos da cidade.

Além do turismo de saúde, Águas de Lindóia é conhecida por suas **belezas naturais**, com montanhas, trilhas, parques e uma paisagem encantadora da Serra da Mantiqueira. O **Morro Pelado**, por exemplo, é uma das atrações mais populares da cidade, oferecendo uma vista panorâmica espetacular da região.

Águas de Lindóia Hoje

Com uma população de cerca de 19.000 habitantes, Águas de Lindóia continua a prosperar como um destino turístico, com uma economia baseada no turismo de saúde e no engarrafamento de água mineral. A cidade mantém seu charme de interior, combinando a tranquilidade e o bem-estar com uma infraestrutura turística moderna.

O turismo é o principal motor econômico da cidade, e Águas de Lindóia segue atraindo visitantes de todo o Brasil, que buscam relaxamento, tratamentos de saúde e o contato com a natureza.

A Revolução de 1932 e a Mobilização de Águas de Lindóia

A cidade de **Águas de Lindóia**, assim como várias outras regiões do estado de São Paulo, teve uma participação importante na Revolução Constitucionalista de 1932, o maior conflito armado da história do Brasil no século XX. Essa revolução foi uma tentativa de forçar o governo de Getúlio Vargas a promulgar uma nova Constituição, após a Revolução de 1930 ter deposto o então presidente Washington Luís e instalado Vargas no poder de forma provisória, sem uma nova Carta Magna.

Durante a revolução, voluntários de várias cidades do interior de São Paulo, incluindo Águas de Lindóia, se juntaram às forças constitucionalistas. Muitos desses voluntários eram civis, que se alistaram para lutar em prol da causa de uma nova Constituição. A região de Águas de Lindóia, assim como **Lindóia** (cidade vizinha), também serviu como ponto de apoio logístico, fornecendo suprimentos e recursos para as tropas que combatiam nas fronteiras.

A cidade, próxima à divisa com Minas Gerais, estava em uma área de disputa estratégica. O estado de Minas Gerais, ao lado do governo de Vargas, representava uma ameaça direta às forças paulistas, que tentavam impedir avanços de tropas inimigas vindas de territórios vizinhos.

Apoio da População Local

Os moradores de Águas de Lindóia, assim como de outras cidades do interior paulista, também participaram ativamente, apoiando os soldados constitucionalistas com alimentos, medicamentos e recursos básicos. As cidades interioranas de São Paulo eram grandes fornecedoras de homens e recursos para o esforço de guerra, e Águas de Lindóia não foi exceção.

Além disso, Águas de Lindóia, com sua localização próxima a áreas de combate, ofereceu suporte às tropas em trânsito, funcionando como base de abastecimento e apoio para os combatentes que atuavam nas frentes de batalha.

Legado da Revolução em Águas de Lindóia

A Revolução de 1932 continua a ser lembrada em São Paulo como um movimento importante na luta pela democracia e pela promulgação de uma nova Constituição, que viria em 1934. Águas de Lindóia, assim como outras cidades do estado, contribuiu com seu esforço, seja através do envio de combatentes ou do suporte logístico às tropas paulistas.

A participação da cidade é uma parte importante de sua história, conectando-a ao movimento que uniu várias cidades paulistas em uma tentativa de forçar mudanças políticas no Brasil. Como em várias cidades do interior, a memória dessa revolução é preservada como um momento de união cívica em prol de uma causa maior.

A NASA?

A cidade de Águas de Lindóia, no interior de São Paulo, tem uma ligação interessante com a NASA por causa de um projeto científico realizado na década de 1960. A conexão remonta ao **Programa Gemini**, uma das missões espaciais dos Estados Unidos, que antecedeu as missões Apollo e foi crucial para o sucesso da ida à Lua.

Durante esse período, Águas de Lindóia foi escolhida como uma das estações de rastreamento de satélites da NASA. A cidade foi selecionada devido à sua localização estratégica e ao clima favorável para a instalação de equipamentos de comunicação e rastreamento. Essas estações eram responsáveis por monitorar as órbitas das espaçonaves, garantir a comunicação entre os astronautas e a base na Terra, além de transmitir dados de voo e telemetria.

Especificamente, em 1966, a estação de rastreamento de Águas de Lindóia ajudou no acompanhamento das missões Gemini, que faziam testes fundamentais, como manobras em órbita e acoplamento de espaçonaves, que mais tarde seriam usados nas missões Apollo para levar o homem à Lua.

Embora a estação tenha funcionado por um período curto, ela marcou a participação de Águas de Lindóia no contexto da exploração espacial, conectando essa cidade com um dos momentos mais emblemáticos da história da humanidade: a corrida espacial e a chegada do homem à Lua.

A Cidade de LINDÓIA

A cidade de **Lindóia**, localizada no interior do estado de São Paulo, é conhecida por suas águas minerais e por sua importância histórica na produção de água mineral no Brasil. Vamos explorar sua história, que está intimamente ligada ao desenvolvimento da região, à valorização de suas fontes termais e ao papel da cidade no cenário nacional e regional.

Origens de Lindóia

A fundação de Lindóia remonta ao século XIX, quando a região era habitada por bandeirantes e tropeiros que passavam pela área em busca de ouro e outros recursos naturais. Durante essas expedições, foram descobertas as propriedades medicinais das águas da região, que atraíram visitantes interessados em aproveitar os benefícios terapêuticos.

Inicialmente, a área de Lindóia fazia parte do município de **Serra Negra**, outra cidade famosa por suas águas termais. A exploração das fontes de água mineral começou de forma modesta, mas foi ganhando destaque à medida que o conhecimento sobre os poderes terapêuticos das águas se espalhava.

Desenvolvimento e Crescimento Econômico

Em 1923, Lindóia foi elevada à condição de distrito de Serra Negra, e, na década de 1930, o desenvolvimento da infraestrutura urbana começou a ganhar impulso, com a construção de estradas e a melhoria dos acessos à cidade. Foi nesse período que o turismo de saúde e a exploração das águas minerais começaram a se intensificar, atraindo visitantes de todo o Brasil.

As águas de Lindóia eram famosas por suas propriedades terapêuticas, especialmente no tratamento de problemas renais, digestivos e de pele. O turismo, combinado com a extração e comercialização das águas minerais, tornou-se a principal atividade econômica da região, moldando a identidade da cidade.

Emancipação de Lindóia (1953)

A cidade de Lindóia ganhou sua autonomia política e administrativa em **21 de março de 1953**, quando foi desmembrada de Serra Negra e se tornou um município independente. A partir de então, Lindóia passou a focar no desenvolvimento de sua infraestrutura turística e na exploração comercial das águas minerais.

Durante as décadas seguintes, a cidade construiu um legado sólido como destino turístico, com balneários, hotéis e clínicas que ofereciam tratamentos baseados no uso das águas minerais. Além disso, a **indústria de engarrafamento de água mineral** também se tornou uma importante fonte de renda e desenvolvimento econômico para a cidade, consolidando sua reputação nacional como produtora de água de qualidade.

Águas Minerais de Lindóia

A água mineral de Lindóia é um dos maiores patrimônios da cidade, reconhecida nacionalmente por sua pureza e composição mineral. A exploração das fontes minerais começou de forma artesanal, mas com o tempo foi se profissionalizando e se transformando em uma indústria de grande relevância.

A fama das águas de Lindóia se espalhou pelo Brasil, e o engarrafamento de água se tornou uma das principais atividades econômicas da cidade. Lindóia é hoje uma referência quando se fala em águas minerais, e suas marcas são amplamente consumidas em todo o país.

Turismo e Importância Regional

Além de ser uma cidade conhecida pela água mineral, Lindóia também desenvolveu uma infraestrutura turística que atrai visitantes interessados em relaxamento, tratamentos de saúde e contato com a natureza. A cidade faz parte do **Circuito das Águas Paulista**, uma rota turística que inclui várias cidades do interior de São Paulo famosas por suas águas termais, como Águas de Lindóia, Serra Negra, Socorro e Monte Alegre do Sul.

O turismo em Lindóia está diretamente ligado às águas minerais, com balneários e hotéis que oferecem tratamentos de hidroterapia e relaxamento. Além disso, a cidade é conhecida por sua tranquilidade, clima ameno e belezas naturais, tornando-se um destino popular para quem busca descanso e contato com a natureza.

Lindóia Hoje

Atualmente, Lindóia continua a ser uma cidade pequena, com pouco mais de 7.000 habitantes, mas que mantém sua relevância como produtora de água mineral e destino turístico. A economia local ainda gira em torno da extração de águas minerais e do turismo de saúde, o que faz da cidade um lugar próspero, mesmo sendo de pequeno porte.

Lindóia preserva seu caráter acolhedor e pacato, atraindo turistas que buscam os benefícios de suas águas e o estilo de vida tranquilo do interior paulista. A cidade também participa de eventos regionais e culturais, mantendo viva sua herança histórica e seu papel dentro do Circuito das Águas.

Conclusão

A história de Lindóia está intimamente ligada à exploração de suas águas minerais, que impulsionaram o desenvolvimento econômico e turístico da cidade. Desde suas origens como uma área de passagem para tropeiros até sua emancipação como município, Lindóia soube aproveitar seus recursos naturais para construir uma reputação sólida como produtora de água de qualidade e destino turístico de bem-estar.

Sua herança histórica e a riqueza natural continuam a atrair visitantes e a impulsionar a economia local, fazendo de Lindóia uma cidade especial no interior de São Paulo, com um legado duradouro na indústria de águas minerais e no turismo de saúde.

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Aviação – Sadia Transportes Aéreos

A história da Sadia Transportes Aéreos (STA), que mais tarde se tornaria a Transbrasil, é uma narrativa fascinante que mistura empreendedorismo, inovação, desafios econômicos e mudanças estratégicas. A STA é um exemplo clássico de como uma empresa, que começou com propósitos modestos, pode se transformar em um gigante da aviação e deixar um legado duradouro. Vamos explorar essa história em detalhes.

As Origens: Sadia Transportes Aéreos (1955-1972)

O Início no Transporte de Cargas

A Sadia Transportes Aéreos foi fundada em 1955 pelo visionário empresário Attilio Fontana, que já era o dono da empresa de alimentos Sadia, uma das maiores do Brasil. A criação da STA foi motivada inicialmente pela necessidade de transportar rapidamente produtos perecíveis, principalmente carne e alimentos processados, das fábricas da Sadia em Concórdia, Santa Catarina, para os principais mercados consumidores no Brasil, como São Paulo e Rio de Janeiro.

O transporte rodoviário, na época, era lento e pouco confiável, o que comprometia a entrega de produtos frescos. Attilio Fontana, sempre atento a novas oportunidades, viu na aviação uma solução para esse problema. Com isso, a STA começou suas operações focando no transporte de carga, utilizando pequenas aeronaves que podiam voar de forma rápida e eficiente entre as cidades.

Expansão para o Transporte de Passageiros

Em 1956, apenas um ano após sua fundação, a STA ampliou suas operações para incluir o transporte de passageiros. Inicialmente, a companhia operava em rotas regionais no Sul do Brasil, conectando cidades menores a grandes centros urbanos. A STA começou a conquistar uma clientela fiel devido à sua confiabilidade, ao bom atendimento e ao foco em atender às necessidades específicas de cada região.

A empresa cresceu rapidamente, e, em pouco tempo, a STA começou a adquirir aeronaves maiores e mais modernas, como o Douglas DC-3, um avião muito popular na época. Esse crescimento permitiu que a STA expandisse suas rotas para outras partes do Brasil, além do Sul, como o Sudeste e o Centro-Oeste.

A Frota e a Modernização

Nos anos 1960, a STA começou a modernizar sua frota, substituindo os DC-3 por aeronaves mais modernas e de maior capacidade, como o Convair 240 e, mais tarde, o Avro 748. Essa modernização foi crucial para a expansão da companhia, pois permitiu que a STA operasse voos mais longos e com mais passageiros.

A STA também investiu na qualidade do serviço a bordo, oferecendo um padrão de atendimento ao cliente que era comparável ao das maiores companhias aéreas do mundo. A empresa começou a se destacar pela pontualidade e pelo conforto oferecido aos seus passageiros, construindo uma reputação sólida no mercado.

A Transformação: De Sadia a Transbrasil (1973-1980)

Rebranding e Expansão

Em 1972, a Sadia Transportes Aéreos passou por uma grande transformação. Com o crescimento da empresa e a diversificação das operações, a diretoria decidiu que era hora de mudar a marca para algo que refletisse melhor a abrangência nacional da companhia. Assim, em 1973, a STA foi rebatizada como Transbrasil.

Essa mudança de nome foi acompanhada por uma nova identidade visual e uma estratégia de marketing agressiva. A Transbrasil adotou cores vibrantes em suas aeronaves e lançou campanhas publicitárias que enfatizavam o conforto e a eficiência dos seus serviços. A companhia aérea queria se posicionar como a empresa que conectava todas as regiões do Brasil, de norte a sul, de leste a oeste.

A Nova Frota e a Expansão das Rotas

A Transbrasil continuou a modernizar sua frota durante os anos 1970, adquirindo aeronaves a jato, como o Boeing 727 e o Boeing 737. Essas aeronaves permitiram que a empresa operasse voos mais longos, com maior capacidade e mais eficiência, expandindo suas rotas para todas as capitais e principais cidades do Brasil.

Além das rotas domésticas, a Transbrasil começou a explorar o mercado internacional, com voos para a América do Sul. A expansão internacional era um passo natural para a companhia, que já havia se consolidado como uma das principais empresas aéreas do Brasil. No entanto, entrar no mercado internacional exigia um planejamento cuidadoso e investimentos significativos.

Os Desafios e o Crescimento nos Anos 1980

A Crise Econômica e a Estratégia de Sobrevivência

Os anos 1980 foram uma década de desafios econômicos para o Brasil, com inflação alta, crise da dívida externa e instabilidade política. Essas dificuldades afetaram diretamente o setor aéreo, que viu os custos operacionais aumentarem drasticamente devido ao preço do combustível, à inflação e à desvalorização da moeda.

A Transbrasil, no entanto, conseguiu se adaptar às novas realidades econômicas. A empresa adotou uma estratégia de contenção de custos, renegociando contratos de leasing de aeronaves, otimizando suas rotas e buscando eficiência operacional. Apesar dos desafios, a Transbrasil continuou a crescer e manteve sua posição como uma das maiores companhias aéreas do país.

Inovação e Diferenciação

Durante esse período, a Transbrasil começou a se destacar também pela inovação em serviços e marketing. A empresa foi pioneira em várias iniciativas no Brasil, como o lançamento do programa de milhas Smiles (em parceria com a Varig), que recompensava os passageiros frequentes. A Transbrasil também foi uma das primeiras companhias aéreas brasileiras a introduzir sistemas de entretenimento a bordo em voos domésticos.

Outra inovação foi a introdução do serviço de “Pontualidade ou a Passagem de Volta é Grátis”, uma promessa ousada que mostrava a confiança da Transbrasil em sua capacidade de operar de forma eficiente e pontual. Essa iniciativa foi bem recebida pelos passageiros e ajudou a fortalecer a imagem da companhia como uma empresa confiável.

Expansão Internacional e Anos de Ouro (1990-1995)

A Expansão para a América do Norte e Europa

Nos anos 1990, com a economia brasileira começando a se estabilizar, a Transbrasil decidiu expandir suas operações internacionais. A empresa lançou voos para destinos na América do Norte, incluindo Miami e Orlando, nos Estados Unidos, e depois para Nova York. Esses voos foram um sucesso, atraindo não apenas brasileiros, mas também turistas e empresários americanos que queriam visitar o Brasil.

Posteriormente, a Transbrasil expandiu suas operações para a Europa, com voos para Lisboa, em Portugal, e Londres, no Reino Unido. Essas rotas consolidaram a posição da Transbrasil como uma transportadora internacional, competindo com grandes empresas aéreas estrangeiras.

O Rebranding e a Identidade Cultural

A Transbrasil também passou por um rebranding na década de 1990, adotando uma identidade visual mais moderna e colorida, com a famosa “bandeira” em suas caudas e fuselagens, simbolizando a conexão com o Brasil. As aeronaves da Transbrasil eram pintadas com cores vibrantes, e cada uma representava uma fase do dia: nascer do sol, pôr do sol, noite estrelada, etc. Essa estratégia criativa destacou a companhia das concorrentes e reforçou a sua identidade como uma empresa inovadora e focada na experiência do cliente.

Declínio e Crise Financeira (1996-2001)

Problemas Financeiros e Gestão

Apesar de seus anos de ouro, a Transbrasil começou a enfrentar sérios problemas financeiros no final dos anos 1990. O aumento dos custos operacionais, a crescente competição no mercado doméstico e internacional, e uma gestão empresarial questionável começaram a afetar a saúde financeira da empresa.

A situação se agravou com a crise econômica no Brasil no final da década de 1990, marcada por uma desvalorização cambial em 1999 que aumentou drasticamente os custos de manutenção e leasing das aeronaves, que eram em sua maioria pagos em dólares. A Transbrasil tentou diversas estratégias para se recuperar, incluindo a renegociação de dívidas e a redução de rotas, mas os problemas continuaram a se acumular.

Mudanças na Gestão e Tentativas de Salvamento

Nos anos 2000, a Transbrasil passou por várias mudanças na gestão na tentativa de reverter sua situação financeira. A família Fontana, que havia fundado a empresa, tentou encontrar parceiros estratégicos e investidores para salvar a companhia, mas essas tentativas não tiveram sucesso.

As dívidas da empresa continuavam a crescer, e a falta de capital de giro dificultava a manutenção das operações diárias. A crise se agravou a ponto de a Transbrasil não conseguir mais pagar por combustível, taxas aeroportuárias e salários dos funcionários.

O Fim das Operações (2001-2002)

Em dezembro de 2001, a situação da Transbrasil se tornou insustentável. A empresa foi forçada a suspender suas operações devido à falta de condições financeiras para continuar voando. Aeronaves foram apreendidas por falta de pagamento de leasing, e a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) revogou a concessão da companhia em 3 de dezembro de 2002, após constatar a inviabilidade de sua recuperação.

O fim da Transbrasil foi um golpe duro para a aviação brasileira. A companhia havia sido uma das maiores e mais inovadoras empresas aéreas do país, e seu fechamento deixou um vazio no mercado, especialmente em rotas internacionais onde a empresa era uma forte concorrente.

Legado da Transbrasil

Apesar do seu fim trágico, a Transbrasil deixou um legado significativo na história da aviação brasileira. A empresa é lembrada por suas inovações, sua forte identidade cultural e sua capacidade de conectar o Brasil ao resto do mundo.

Ex-funcionários e clientes da Transbrasil frequentemente relembram com saudade a companhia, que se destacou por um serviço ao cliente diferenciado e por ser uma empresa que valorizava a pontualidade e a eficiência. A marca Transbrasil continua a ser um símbolo de uma era em que voar era uma experiência especial e que refletia o espírito de um Brasil em crescimento.

Conclusão

A história da Sadia Transportes Aéreos, que se transformou na Transbrasil, é um reflexo das mudanças econômicas e sociais que o Brasil viveu ao longo de várias décadas. Desde suas origens modestas como uma transportadora de carne até se tornar uma gigante da aviação internacional, a Transbrasil foi uma empresa que sempre buscou inovar e oferecer o melhor aos seus clientes.

O fim da Transbrasil foi uma perda para a aviação brasileira, mas seu legado perdura, lembrado por aqueles que tiveram a sorte de voar com a companhia ou de trabalhar para ela. A história da Transbrasil serve como um testemunho de como o empreendedorismo, a inovação e a resiliência podem levar uma empresa ao sucesso, mesmo diante de adversidades.

By Lito

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Dias da Semana em Português

A nomenclatura dos dias da semana em português tem uma relação direta com a tradição cristã, particularmente com a forma como a Igreja Católica organizava o calendário litúrgico. Nos primeiros séculos do cristianismo, havia uma preocupação em cristianizar os aspectos da vida cotidiana, incluindo a forma como o tempo era medido e os dias eram nomeados.

A palavra “feira” vem do latim *feria*, que significava originalmente “dia de descanso” ou “dia de celebração religiosa“. No cristianismo primitivo, os dias de “feria” eram dias de celebração religiosa, especialmente durante a Semana Santa, quando os dias eram numerados sequencialmente após o domingo (dia do Senhor).

A Semana Santa e os “Dias Feriais”

A Semana Santa, que antecede a Páscoa, era um período particularmente importante na liturgia cristã, com cada dia sendo uma “feria” seguida de um número que indicava sua ordem após o domingo. Por exemplo:

Feria secunda (segunda-feira)

Feria tertia (terça-feira)

Feria quarta (quarta-feira)

Feria quinta (quinta-feira)

Feria sexta (sexta-feira)

Esses termos começaram a ser usados não apenas durante a Semana Santa, mas ao longo de todo o ano, refletindo uma prática de designação que evitava a utilização de nomes pagãos para os dias da semana.

Evitando os Nomes Pagãos

Nos territórios de língua latina, incluindo o Império Romano, os dias da semana eram originalmente associados a divindades da mitologia romana e a corpos celestes, como:

Dies Lunae (Dia da Lua) – Segunda-feira

Dies Martis (Dia de Marte) – Terça-feira

Dies Mercurii (Dia de Mercúrio) – Quarta-feira

Dies Lovis (Dia de Júpiter) – Quinta-feira

Dies Veneris (Dia de Vênus) – Sexta-feira

Dies Saturni (Dia de Saturno) – Sábado

Dies Solis (Dia do Sol) – Domingo

Porém, à medida que o Cristianismo se tornou a religião dominante, houve um esforço consciente para evitar esses nomes pagãos. A Igreja, portanto, promoveu uma forma alternativa de nomenclatura, que enfatizava a santidade e a centralidade de Deus no ciclo semanal.

A Disseminação da Nomenclatura Cristã em Portugal

Em Portugal, a adoção da nomenclatura cristianizada para os dias da semana foi particularmente forte. Este sistema foi consolidado e permaneceu, diferentemente de outras regiões de língua latina onde os nomes de origem pagã prevaleceram.

Essa escolha refletia não apenas a força da Igreja na vida cotidiana, mas também um desejo de diferenciar o uso português do calendário de outras culturas e religiões. A introdução e a manutenção desse sistema estavam alinhadas com a visão de mundo teocêntrica da Idade Média, onde a religião dominava todos os aspectos da vida, incluindo a linguagem.

Domingo e Sábado: Exceções à Regra

O “domingo” e o “sábado” são exceções à regra da “feira“, e sua etimologia também reflete influências religiosas:

Domingo: Vem do latim *Dominicus*, que significa “dia do Senhor”. Este termo é diretamente ligado à tradição cristã, que consagra o domingo como o dia de repouso e de culto a Deus, em homenagem à ressurreição de Cristo.

Sábado: Vem do hebraico *Shabbat*, que significa “descanso” ou “cessação”. No Antigo Testamento, o sábado era o dia de descanso ordenado por Deus, após os seis dias da Criação. Embora o sábado tenha sido o dia sagrado de repouso no judaísmo, na tradição cristã, essa função foi transferida para o domingo.

Comparação com Outras Línguas Românicas

Se compararmos com outras línguas românicas, podemos ver como a tradição portuguesa se destaca:

Espanhol e Italiano: Nestas línguas, os dias da semana mantiveram nomes baseados nas divindades romanas e nos corpos celestes. Por exemplo, “lunes” (segunda-feira em espanhol) vem de “Luna” (Lua), e “martes” (terça-feira) vem de “Marte”.

Francês: O francês também seguiu o padrão romano com nomes como “lundi” (segunda-feira) e “mardi” (terça-feira).

A opção portuguesa de usar “feira” nos dias da semana, portanto, é única e reflete um zelo religioso em cristianizar completamente o calendário.

Conclusão

O uso do termo “feira” nos dias da semana em português é um testemunho da influência profunda que a Igreja Católica exerceu sobre a língua e a cultura em Portugal. Essa nomenclatura foi uma maneira de cristianizar o calendário, afastando-o de referências pagãs e destacando a importância dos dias sagrados na vida dos fiéis. Essa prática foi preservada ao longo dos séculos, e hoje faz parte da rica herança linguística e cultural do mundo lusófono, diferenciando-o de outras culturas latinas e reforçando a identidade histórica e religiosa de Portugal e do Brasil.

Vídeo do excelente Canal “Estranha História”

By Lito

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13 de Maio – Libertação dos Escravos

E o dia dos Pretos velhos na Umbanda!

O 13 de maio é uma data de grande significado no Brasil, marcada principalmente pela Lei Áurea, assinada em 1888, que aboliu formalmente a escravidão no país. No contexto da Umbanda, uma religião afro-brasileira que combina elementos do catolicismo, espiritismo e várias tradições africanas, essa data adquire um significado especial e complexo.

Contexto Histórico e Religioso

Apesar da abolição da escravidão ter sido um marco legal importante, muitos afro-brasileiros continuaram a enfrentar discriminação e desigualdade social. As religiões de matriz africana, como a Umbanda e o Candomblé, foram especialmente marginalizadas e frequentemente associadas a práticas negativas pela sociedade majoritariamente católica e por políticas de estado que promoviam a repressão cultural.

13 de Maio na Umbanda

Na Umbanda, o 13 de maio é um dia que pode ser observado com uma mistura de celebração e reflexão. Embora reconheça a importância da abolição da escravidão, há também um reconhecimento de que a libertação não foi completa, com muitos ex-escravos deixados sem suporte para uma verdadeira integração social e econômica.

Reflexão sobre a Liberdade e a Justiça

Para muitos praticantes da Umbanda, essa data é uma oportunidade para refletir sobre questões mais amplas de liberdade, justiça e igualdade. É um momento para honrar os ancestrais e refletir sobre o legado da escravidão que ainda impacta as comunidades afro-brasileiras.

Trabalhos Espirituais e Homenagens

Em algumas casas de Umbanda, o 13 de maio pode incluir trabalhos espirituais dedicados a entidades que simbolizam a luta e resistência dos povos africanos, como caboclos e pretos velhos, que são espíritos de antigos escravos ou indígenas que trabalham pela cura, proteção e justiça. Estes espíritos são reverenciados por sua sabedoria e conexão com as raízes africanas e indígenas do Brasil.

Ativismo e Conscientização

Além dos aspectos religiosos, este dia também pode ser marcado por atividades de conscientização sobre o racismo e a desigualdade. Muitos terreiros participam ou organizam eventos que discutem a história da escravidão no Brasil e seu impacto contínuo na sociedade.

Conclusão

O 13 de maio na Umbanda é, portanto, uma data de grande profundidade cultural e espiritual, servindo como um lembrete da luta contínua pela justiça e igualdade, bem como uma celebração da resiliência cultural e espiritual das comunidades afro-brasileiras. A data reforça a relevância da Umbanda e outras tradições afro-brasileiras no enfrentamento de questões sociais e na promoção de uma sociedade mais inclusiva e justa.

Crônica: Preto velho na Umbanda

13 de maio – Dia dos Pretos Velhos!!! Saravá, meu pai!!! Saravá minha mãe!!!

Em meio ao incenso que serpenteava suavemente pelo ar e o som suave dos atabaques, uma figura curvada, com passos lentos e uma serenidade imensurável, tomava seu lugar no centro do terreiro. Era um Preto Velho, entidade venerada na Umbanda, trazendo consigo a sabedoria das eras e a paciência forjada na adversidade da escravidão.

Em noite de gira, as velas lançavam sombras dançantes sobre as paredes de barro da pequena sala adornada com imagens de santos e orixás. A figura do Preto Velho, envolta em sua bata branca, parecia oscilar entre o mundano e o espiritual, um elo entre o passado de sofrimento e um presente em busca de consolo e direção.

Na Umbanda, o Preto Velho representa o espírito de antigos escravos que retornam à Terra para auxiliar aqueles que buscam ajuda. São vistos como símbolos de humildade, paciência e compreensão. Suas palavras, sempre carregadas de amor e bondade, parecem fluir de um poço profundo de experiência, oferecendo conselho e conforto aos fiéis que formam uma semi-círculo à sua volta.

“Meus filhos,” começava ele, sua voz rouca embalando o silêncio, “a vida é um fio esticado de aprendizado. Cada um carrega sua cruz, mas também tem o dom de aliviar o peso das cruzes alheias.” Seus olhos, quase ocultos sob as pálpebras pesadas, brilhavam com uma luz que parecia transcendente.

Entre os fiéis, um jovem se aproximava, o rosto marcado pela angústia de recentes desafios pessoais. O Preto Velho, percebendo seu sofrimento, estendia suas mãos nodosas, tocando levemente o ombro do rapaz. “No caminho que escolhe, meu filho, encontrarás pedras, mas lembre-se que até a pedra mais bruta pode ser lapidada até se tornar uma joia.”

A sessão seguia com consultas, conselhos e passes espirituais, cada gesto do Preto Velho parecia banhar a sala com uma aura de calma e resignação. Não era apenas uma noite de práticas espirituais, mas um momento de comunhão profunda, onde o passado doloroso dos escravizados transformava-se em lições de resistência e esperança.

Conforme a noite avançava e os cânticos ecoavam pela casa, o ar parecia mais leve. O Preto Velho, sua presença quase etérea agora, concluía a gira com um sorriso gentil, lembrando a todos da força que reside na fé e no amor. “A bondade,” dizia ele, “é o maior dos poderes, capaz de transformar o mal em bem, a tristeza em alegria.”

Quando os últimos fiéis deixavam o terreiro, levando consigo palavras de esperança e cura, a figura do Preto Velho desvanecia aos poucos, como se absorvida de volta à história, deixando atrás de si um rastro de paz e a promessa de retorno sempre que necessário. No coração da Umbanda, o Preto Velho permanecia não apenas como uma entidade de culto, mas como um símbolo vivo da resiliência do espírito humano.

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Vamos Filosofar um pouco????

Vamos lá…. Vamos queimar a cabeça e deixar a caspa virar Mandiopã…..

Lembram do Mandiopã?

O Problema do Mal

É uma questão filosófica e teológica central que questiona como o mal pode existir em um mundo governado por um Deus que é simultaneamente onipotente, onisciente e infinitamente bom. Este dilema tem sido um dos debates mais persistentes na história do pensamento religioso e filosófico, especialmente dentro do cristianismo, judaísmo e islamismo, mas também é relevante em outras tradições religiosas e contextos filosóficos. 

Origens do Problema 

O Problema do Mal surge principalmente em contextos teístas onde Deus é entendido como tendo as três propriedades mencionadas: onipotência (todo-poderoso), onisciência (todo-sabedor) e benevolência (infinitamente bom). O dilema é formulado da seguinte maneira: 

  • Se Deus é onipotente, Ele tem o poder para prevenir todo mal. 
  • Se Deus é onisciente, Ele sabe quando e onde o mal ocorrerá. 
  • Se Deus é benevolente, Ele desejará prevenir todo mal. 
  • No entanto, o mal existe. 

Respostas ao Problema 

Ao longo dos séculos, várias respostas foram propostas para resolver ou abordar esse dilema: 

1. Livre-arbítrio: Uma das respostas mais comuns é que Deus deu aos seres humanos livre-arbítrio, e o mal é o resultado das escolhas livres feitas por pessoas. A capacidade de escolher é vista como um bem maior que justifica a possibilidade do mal. No entanto, essa resposta frequentemente enfrenta desafios relacionados ao mal natural (como terremotos e doenças) que não são causados por ações humanas. 

2. Desenvolvimento de Virtudes: Outra abordagem é que o mal permite o desenvolvimento de virtudes como coragem e compaixão. Em outras palavras, sem enfrentar o mal e os desafios, certos tipos de bens não poderiam existir. 

3. O Mal Como Ausência de Bem: Alguns filósofos, como Agostinho, argumentam que o mal não é uma entidade ou força própria, mas sim a ausência ou privação do bem. Nessa visão, Deus não criou o mal; em vez disso, o mal ocorre quando algo de bom falta ou falha. 

4. Teodiceia e Planos Insondáveis: A ideia de teodiceia envolve justificar as maneiras de Deus perante o mundo. Alguns teólogos e filósofos sugerem que o mal faz parte de um plano divino mais amplo e incompreensível para os seres humanos, onde todos os eventos, incluindo aqueles que são maus, têm um propósito final bom. 

5. O Problema do Mal Como Evidência Contra Deus: No lado mais cético, algumas pessoas usam o problema do mal como um argumento contra a existência de um Deus onipotente e benevolente. Este é um ponto central no argumento ateu e agnóstico, sugerindo que a natureza do mal no mundo é incompatível com um Deus como tradicionalmente concebido. 

Impacto e Discussões Contemporâneas 

O Problema do Mal continua a ser um ponto de intensa discussão e reflexão, não apenas em círculos teológicos, mas também em considerações éticas, políticas e pessoais sobre como lidar com o sofrimento e a injustiça no mundo. As respostas a este problema muitas vezes moldam as visões das pessoas sobre a religião, o propósito da vida e a natureza da moralidade humana e divina. 

Diferentes filósofos abordaram o Problema do Mal de várias maneiras, refletindo uma ampla gama de perspectivas que vão desde tentativas teístas de reconciliar a existência de Deus com o mal no mundo até abordagens mais céticas que questionam a existência de um Deus benevolente. Aqui estão algumas das opiniões e contribuições mais influentes de filósofos ao longo da história: 

1. Agostinho de Hipona (354–430): Agostinho argumentou que o mal não é uma substância ou entidade, mas uma privação do bem, uma falta de algo que deveria estar presente. Ele também defendeu que o livre-arbítrio humano é a causa do mal moral e que os desastres naturais são consequência do pecado original. Vamos falar, mais abaixo, sobre essa consideração em particular…

2. Tomás de Aquino (1225–1274): Tomás também viu o mal como uma privação do bem e destacou a importância do livre-arbítrio. Ele acreditava que Deus permite o mal para trazer um maior bem, uma perspectiva que tenta mostrar que Deus tem um plano maior, muitas vezes incompreensível para os humanos. 

3. David Hume (1711–1776): Em sua obra “Diálogos sobre a Religião Natural”, Hume foi muito crítico em relação à ideia de um Deus onisciente e todo-poderoso dada a presença do mal. Ele argumentou que a existência do mal é incompatível com um Deus que possui as três qualidades de onipotência, onisciência e benevolência, e isso seria uma evidência contra a existência desse tipo de Deus. 

4. Gottfried Wilhelm Leibniz (1646–1716): Leibniz propôs uma famosa teodiceia, argumentando que nosso mundo, apesar de seu mal, é o “melhor dos mundos possíveis” que Deus poderia ter criado. Segundo ele, qualquer mudança no mundo atual poderia levar a um maior desequilíbrio e mais mal. 

5. Alvin Plantinga (1932–): Plantinga, um filósofo contemporâneo, desenvolveu uma defesa do livre-arbítrio, argumentando que Deus, ao criar seres livres, permitiu a possibilidade do mal, mas que o livre-arbítrio é um bem maior. Plantinga sustenta que é logicamente possível para Deus ser onipotente e todo-bondoso, enquanto ainda existe o mal devido ao livre-arbítrio. 

6. J.L. Mackie (1917–1981): Mackie defendeu o argumento da incompatibilidade, afirmando que a existência do mal é lógica e factualmente inconsistente com a existência de um Deus onipotente e totalmente benevolente. Ele argumentou que se Deus existisse, não deveria haver mal algum, o que claramente não é o caso. 

Cada um desses filósofos trouxe uma perspectiva única ao Problema do Mal, influenciando tanto os debates teológicos quanto os filosóficos. Essas discussões continuam a ser relevantes hoje, influenciando como as pessoas entendem a relação entre fé, mal e a natureza do divino. 

Segundo Santo Agostinho

Esta é uma elaboração não apenas centrada na visão de Agostinho para o problema do mal como também encerra em si uma crítica ao mesmo, e para aqueles vieses teológicos que de certa forma coadunam com tal explanação para o mal no mundo. 

O problema do mal se constitui em um dos grandes problemas da filosofia, e nada melhor, neste contexto, de citar Santo Agostinho que inexoravelmente “precisa” elaborar, por assim dizer, um pensamento que unifique um entendimento das idiossincrasias existenciais com fé e razão. 

Podemos então dizer que o mote principal de Agostinho para o mal e seus desdobramentos é a idéia de que o mal e si é necessário para que possamos apreciar melhor o bem. Santo Agostinho observou que, se nada de mal acontecesse alguma vez, não poderíamos conhecer e apreciar o bem. 

É interessante lembrar que ele, antes de ser cristão, foi um maniqueísta e o Maniqueísmo defendia que havia dois princípios opostos:

Deus

Um Deus bom e outro mal e que, portanto, o mal era uma substância. Somente depois, Santo Agostinho vai encontrar uma fantástica solução para a resolução do problema. A solução deste problema por ele achada foi a sua libertação e a sua grande descoberta filosófico-teológica, e marca uma diferença fundamental entre o pensamento grego e o pensamento cristão. Antes de tudo, nega a realidade metafísica do mal. 

Ele constata que o mal não é um ser, não tem caráter ontológico, não tem nada de positivo, enfim ele é um não-ser. Ele diz: “O mal não tem natureza alguma, pois a perda do ser é que tomou o nome de mal”. 

Se todo o bem fosse retirado das coisas boas, nada sobraria, pois o mal não é uma substância como queria os maniqueístas, e assim sendo seria impossível que o mal tenha se originado de Deus, pois Deus é aquele que dá o ser às coisas. 

A Solução de Agostinho

A solução de Agostinho para o problema do mal está relacionada à pergunta “o que é o mal?” 
Em Agostinho temos dois silogismos acerca da inautenticidade do mal: 

Primeiro silogismo: 

  • 1) Todas as coisas que Deus criou são boas;  
  • 2) o mal não é bom;  
  • 3) portanto, o mal não foi criado por Deus. 

Segundo Silogismo: 

  • 1) Deus criou todas as coisas;  
  • 2) Deus não criou o mal;  
  • 3) portanto,o mal não é uma coisa. 
     

Agostinho observou que o mal não poderia ser escolhido, pois ele não era uma coisa a ser escolhida.  

Alguém pode apenas afastar-se do bem, isso é, de um grau maior para um grau menor (na hierarquia de Agostinho) desde que todas as coisas são boas. Pois, segundo ele, quando a vontade abandona o que está acima de si e se vira para o que está abaixo, ela se torna má – não porque é má a coisa para a qual ela se vira, mas porque o virar em si é mau.  

O mal, então, é o próprio ato de escolher um bem menor. Para Agostinho a fonte do mal está no livre arbítrio das pessoas e na contemplação das dimensões do mal que, a saber, são de caráter metafísico, físico e moral. 

Esta observação é parcialmente lógica e parcialmente psicológica. Logicamente, na ausência do conceito de mal não poderia haver uma concepção do bem, tal como não poderia haver uma noção de alto na ausência de uma noção de baixo. Não poderíamos sequer saber o que é o bem se não tivéssemos o mal para servir de comparação.  

Além disso, psicologicamente, se nunca sofrêssemos, tomaríamos as coisas boas por garantidas e não as desfrutaríamos tanto. Como poderíamos reconhecer e desfrutar a saúde se não existisse a doença? Portanto, desejar um mundo que contenha apenas coisas boas é uma tolice. 

No entanto, mesmo que isto seja verdade, explica apenas por que razão Deus poderia permitir a existência de algum mal. De fato, podemos precisar que nos aconteça algumas coisas más de vez em quando, apenas para que não nos esquecermos que somos tão afortunados.  

Mas, existe muito mal no mundo…

Mas isto não explica por que razão há tanto mal no mundo. O problema é que o mundo contém mais mal do que necessário para apreciar o bem. Se por exemplo o número de pessoas que morrem de tuberculose por ano fosse reduzido para metade, isso seria ainda suficiente para nos fazer apreciar a saúde.  

E como já temos que lidar com a tuberculose, não precisamos realmente do câncer, e ainda menos da AIDS, da distrofia muscular, da paralisia cerebral, do Ebola, Covid-19, da doença de Alzheimer e por aí vai. 

A idéia de que o mal é um castigo pela conduta imoral é de caráter teológico e remonta à história da Criação do Gênesis, que nos diz que inicialmente os seres humanos habitavam em um mundo sem mal, mas de repente entram dois protagonistas famosos nesta histeria lúdica chamados de Adão e Eva, e com a ajuda de uma “serpente”, o resto é “estória”. 

O problema de Agostinho passou a ser casar o conhecimento antigo com sua nova crença e mostrar que eram interdependentes. 

Ele também tinha um problema com o Tempo e a Criação. Segundo o Gênese, deus criou o mundo do nada. Mas na filosofia grega havia uma forte objeção a algo ser criado do nada. O que Deus andava fazendo antes de criar o céu e a terra? 

Agostinho não aceitava responder essa pergunta, mas fazia a seguinte piada: “preparando o INFERNO para quem mete o bedelho nos mistérios”. 

 Se não debatermos filosoficamente estes fatos, vai parecer que todo argumento que o refuta é de caráter reducionista e dispensável, dado o caráter próprio do que a humanidade entende por teologia e suas premissas atemporais, dogmáticas e inexoráveis. 

E a Religião?

Dizer que podemos livrar a religião do criticismo filosófico, este engendrado a partir dos grandes iluministas, é um erro crasso, que foge do escopo da própria filosofia em seu sentido “estrito”, o que difere do senso comum e das crenças verdadeiras. Assim como é errôneo dizer que o próprio movimento do cristianismo da era medieval fosse é um movimento que concebe o homem em toda sua totalidade a partir de pressupostos alhures à sua própria natureza humana e pragmática.

Este é um erro oriundo não da tentativa de conceber Deus racionalmente, mas de impor ao homem, a partir de Deus, premissas santificadas que estão além de sua praticabilidade, que o remete à culpa de “nada”, e o amedronta por séculos até os dias de hoje. Não creio que uma lógica axiomática de belos dizeres dogmáticos e religiosos venha a atender os grandes problemas da humanidade que estão, livremente, no acesso do campo da filosofia estrita e questionadora, que é um campo neutro, sempre sendo bombardeado, hoje, pela ciência e a religião. 

Impreterivelmente a filosofia para alguns estancará no período medieval, e me pergunto se ainda assim os coadunados apenas com Platão, Sócrates e Aristóteles, que fomentam Agostinho e Aquino, não reduzirão ao pó os outros vieses filosóficos até a nossa contemporaneidade, que analogamente ao processo dialético histórico, também evoluiu. 

Digo-lhe que há muitos problemas relacionados à atemporalidade e supremacia da verdade a partir da teologia, me parece que de fato ela só pode ser apreendida a partir de sua infantilidade expoente no inconsciente humano, caso contrário o homem, ao invés de ficar “encima do muro do agnosticismo” hoje, verificaria de pronto a improcedência da teologia como forma de controle passional versus a “racionalidade” da mesma. 

Se não forem as questões políticas como debatemos de início aqui, adentraremos em outro debate exaustivo acerca daquilo que é “humanamente constituído” como verdades eternas, e muitas delas que endossam dogmas que não atendem as necessidades do homem moderno, se é que alguma uma vez o atendeu! 

Há de ser compreendido aqui que as questões não são de caráter de refutação do viés religioso a esmo, mas sim de como esta é classificada dentro da teoria do conhecimento, e como pode ocorrer aos doutos da igreja se apoderar de questões que endossam a irrefutabilidade daquilo que é incognoscível, e quem tem o direto de determinar que Deus ora castiga, ora ama; ora perdoa, ora abençoa? Que contribuição estaríamos aqui falando deste “caldinho”? 
Não dá para desatar Agostinho e Aquino nesta produção histórica, mesmo se assim fosse, iríamos descambar para outras questões muito pertinentes que estão inexoravelmente atreladas ao pensar peculiar de sua época mediante uma Europa desmantelada, em que o homem foi incitado a olhar para longe de si mesmo. 

Posted by cogitoinexcelsius in Uncategorized

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Alan Parsons

Se vocês tiverem curiosidade em ouvir a minha Webradio, irão perceber que sou um FÃ alucinado da banda The Alan Parsons Project!

Como é comum entre talentos da música, desde a mais tenra idade, o produtor e compositor inglês, Alan Parsons, começou sua carreira como técnico de gravação estagiário da gravadora EMI.

Em seguida, foi contratado pelo estúdio Abbey Road, onde participou de nada menos do que a gravação do álbum homônimo dos Beatles.

Antes de caminhar pelas estradas do sucesso como músico e com uma experiência considerável na bagagem, produziu o lendário álbum Dark Side of the Moon (1973) da banda de rock progressivo Pink Floyd, que lhe rendeu uma indicação ao Grammy de melhor mixagem no ano seguinte. Parsons ainda mixou trabalhos solo de artistas como Paul McCartney, George Harrison, The Hollies e Al Stewart, em seu álbum Year of the Cat (1976).

Em 1976, decidiu produzir seu próprio disco, agora atuando não só como técnico, mas também como músico. Uniu-se ao empresário e compositor Eric Woolfson e fundou o Alan Parsons Project, mantendo o estilo new age com pitadas de rock progressivo, que transformou em música e letras com temas peculiares. O primeiro álbum, de 1976 chamou-se Tales of Mistery and Imagination e foi inspirado na obra do escritor inglês Edgar Allan Poe.

Já no ano seguinte, I, Robot teve como musa inspiradora a ficção científica do livro de mesmo nome de Isaac Asimov. No final dos anos 80, porém, Woolfson seguiu outro caminho e Parsons decidiu continuar com o Project.

Em 1982, foi lançado seu maior hit. O incansável refrão ‘I can read your mind’ reverberava nas paradas, com o álbum Eye in the Sky, que ganhou inúmeros discos de ouro e platina no mundo inteiro.

Em seu último trabalho, A Valid Path lançado em 2004, Alan Parsons inova, mergulhando na música eletrônica presente em canções inéditas e em novas versões de algumas já bastante conhecidas. O álbum tem ainda a participação de David Gilmour, guitarrista do Pink Floyd.

The Alan Parsons Project

É um grupo de rock inglês formado nos fins dos anos 70 inícios dos anos 80 e foi fundado por Alan Parsons e Eric Woolfson.

Muitos dos seus títulos, especialmente os primeiros, partilham traços comuns com The Dark Side of the Moon do Pink Floyd, talvez influenciado pela sua participação como engenheiro de som na produção deste álbum em 1973. Eram álbuns conceituais que começavam com uma introdução instrumental esvanecendo-se na primeira canção, uma peça instrumental no meio do segundo lado do LP e terminavam com uma canção calma, triste e poderosa. (No entanto, a introdução instrumental só foi realizada até 1980 – a partir desse ano, nenhum álbum exceto “Eye In The Sky” possuiu uma.)

O grupo era bastante incomum na continuidade dos seus membros. Em particular, as vocalizações principais pareciam alternar entre Woolfson (principalmente nas músicas lentas e tristes) e uma grande variedade de vocalistas convidados escolhidos devido às suas características para interpretar determinado tema.

Mesmo assim, muitos sentem que o verdadeiro cerne do Projeto consistia exclusivamente de Alan Parsons e Eric Woolfson. Eric Woolfson era um advogado, por profissão, mas também um compositor clássico treinado e pianista. Alan Parsons era um produtor musical de grande sucesso. Ambos trabalharam juntos para conceber canções notáveis e com uma fidelidade impecável.

Andrew Powell (compositor e organizador de música de orquestra durante a vida do projeto), Ian Bairnson (guitarrista) e Richard Cottle (sintetizador e saxofonista) também se tornaram partes integrais do som do Projeto. Powell é também acreditado por ter composto uma banda sonora ao estilo do Projeto para o filme Feitiço de Áquila (Ladyhawke em inglês) de Richard Donner.

Discografia

1975 Tales of Mystery and Imagination, Edgar Allan Poe – Baseado em histórias do escritor Edgar Allan Poe. A posterior reedição em CD (1987) tinha uma introdução falada por Orson Welles.

1977 I Robot – É o título da obra de Isaac Asimov. Muitas das canções deste álbum são baseadas em novelas deste escritor. O álbum é chamado de “uma visão do amanhã através dos olhos de hoje”.

1978 Pyramid – O Antigo Egipto emerge repetidamente, o álbum é chamado de “uma visão do ontem através dos olhos de hoje”.

1979 Eve – Acerca das mulheres.

1980 The Turn of a Friendly Card – Acerca do jogo.

1982 Eye in the Sky – Acerca da Vida e do Universo, contém o seu single mais famoso, “Eye in the Sky.” “Sirius,” uma faixa instrumental que imediatamente precede “Eye in the Sky” no álbum, é frequentemente utilizada como música de entrada por equipes desportivas americanas; é provavelmente mais conhecida pelo seu uso pelos Chicago Bulls durante a era Michael Jordan.

1983 Ammonia Avenue, este é o seu álbum melhor sucedido comercialmente.

1984 Vulture Culture, uma crítica ao consumismo e, em particular, à cultura popular americana.

1985 Stereotomy – Os pontos de vista de personagens com diferentes doenças mentais.

1987 Gaudi – Acerca do arquiteto Antoni Gaudí e o seu trabalho mais famoso, La Sagrada Família.

Após estes álbuns, Parsons lançou outros títulos sob o seu nome, enquanto que Woolfson fez um último álbum conceitual chamado Freudiana (acerca do trabalho de Sigmund Freud na Psicologia).

Embora a versão de estúdio de Freudiana tenha sido produzida por Alan Parsons, foi principalmente de Eric Woolfson a ideia de convertê-lo num musical. Isto eventualmente levou a uma separação entre os dois artistas.

Enquanto que Alan Parsons seguiu uma carreira solo (levando muitos membros do Projeto para a estrada, pela primeira vez numa tournée mundial de sucesso), Eric Woolfson foi produzir musicais influenciados pela música do Projeto. Freudiana e Gambler foram dois musicais que continham êxitos da banda como “Eye in the Sky”, “Time”, “Inside Looking Out” e “Limelight”.

Membros

Alan Parsons, tecladista, produtor, engenheiro;
Eric Woolfson, tecladista, produtor executivo;
Andrew Powell, tecladista, arranjo para orquestra;
Ian Bairnson, guitarrista
Baixo: David Paton (1975-1985); Laurie Cottle (1985-1987)
Bateria, Percussão: Stuart Tosh (1975-1977); Stuart Elliott (1977-1987)
Saxofone, Teclado: Mel Collins (1980-1984); Richard Cottle (1984-1987)
Vocais: Eric Woolfson, Lenny Zakatek, John Miles, Chris Rainbow, Colin Blunstone, David Paton, e muitos outros.

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Kremlin

O Kremlin visto a partir da Casa no Cais

O Kremlin é um complexo fortificado localizado no centro de Moscou, na Rússia, constituído de torres, muralhas, palácios e catedrais. A construção do Kremlin começou no século 12. Como um dos marcos históricos mais famosos da Rússia, tem desempenhado um papel crucial na história russa como a principal sede da realeza e do governo russos.

O Kremlin foi construído sobre a Colina Borovitsky e cercado pela Praça Vermelha, pelo Rio Moskva (Rio Moscou ou Rio Moscovo, em português do Brasil e em português de Portugal, respectivamente) e pelos Jardins de Alexandre. Ele está escondido atrás de altas muralhas e ocupa 28 hectares (70 acres). É uma lembrança do esplendor russo com seus ricos mármores, paredes vermelhas, pedras brancas e azulejos coloridos. Ele permanece um símbolo perene da longa história russa, com suas muralhas testemunhando coroações, funerais, execuções e intrigas políticas. Ele foi queimado em um incêndio, destruído e reconstruído muitas vezes através da história. A história do Kremlin pode ser dividida em três períodos principais: o Kremlin original de madeira, o Kremlin renascentista e o Kremlin moderno.

Fundação

O KREMLIN FUNCIONAVA COMO UMA PEQUENA CIDADE E SE TORNOU O CENTRO POLÍTICO E ECONÔMICO DE MOSCOU.

O primeiro Kremlin foi construído em 1156 durante o reinado do príncipe Yuri Dolgoruky (1099-1157) (no português europeu, também conhecido como Jorge I, Jorge ou Iuri Longímano). A estrutura de madeira foi construída em uma localização estratégica no topo da Colina Borovitsky, 145 metros acima do nível do mar e com vista para o Rio Moscou e para o Rio Neglinnaya (este último atualmente subterrâneo). As águas do Rio Moscou fluem em direção a um dos maiores cursos d’água da Rússia – o Rio Volga, que, por sua vez, deságua no Mar Cáspio – fazendo daquele um cruzamento entre o norte e o sul da Rússia.

O primeiro Kremlin era cercado por um fosso de cinco metros de profundidade e uma muralha feita de carvalho. Protegidas pelas muralhas estavam as casas dos sacerdotes, dos comerciantes e a propriedade da realeza.

Ivan I de Moscou

O príncipe Ivan Danilovich Kalita (Ivan I de Moscou, 1325-1340) foi o primeiro governante importante de Moscou a fazer grandes mudanças no Kremlin. Ivan I era um aliado da Horda Dourada mongol, o que lhe dava poder e proteção. Ele usou sua riqueza para transformar Moscou em uma cidade grandiosa. Ele construiu a Catedral da Assunção (1326-1327), a Igreja de São João da Escada (também conhecido como São João Clímaco, João Escolástico ou João Sinaíta), a Torre do Sino (1329), a Catedral do Salvador na Floresta (1330) e a Catedral de São Miguel Arcanjo (1333). Ele também substituiu as muralhas do Kremlin por carvalho maciço. Torres de até 13 metros de altura foram levantadas e portões foram criados.

O Kremlin funcionava como uma pequena cidade e se tornou o centro político e econômico de Moscou. Durante o reinado de Ivan I, o Kremlin era conhecido como a grad (a cidade). Os ricos eram capazes de construir casas grandiosas dentro das muralhas, ao longo do palácio e das catedrais. Embora o Kremlin crescesse em tamanho e esplendor, ele era uma fortaleza construída essencialmente de madeira, o que representava uma ameaça significativa, não demorando muito para que as muralhas se deteriorassem.

Vista aérea do Kremlin

Príncipe Dmitry Donskoi

O príncipe Dmitry Donskoi (1359-1389) era neto de Ivan I de Moscou. Durante o seu reinado, o Kremlin foi destruído e reconstruído, o que encorajou Dmitry a substituir as muralhas e torres de madeira por pedra calcária branca em 1367. As novas muralhas foram construídas além do lugar das antigas, aumentando o tamanho da fortaleza. Um novo fosso foi cavado, as muralhas foram aumentadas para 7 metros de altura, ameias (parapeitos localizados na parte superior das muralhas) foram instaladas e a artilharia foi colocada nas passarelas no alto das muralhas.

O novo Kremlin estava completo em 1368 e rapidamente enfrentou uma invasão do exército lituano sob liderança do príncipe Algirdas (r. 1345-1377). O primeiro cerco ao Kremlin durou apenas três dias. O exército lituano acabou sendo derrotado pela imponente estrutura do Kremlin. Os lituanos retornaram em 1370, mas não conseguiram romper as muralhas. Contudo, eles conseguiram queimar parte da cidade fora do Kremlin. Esse segundo ataque rapidamente terminou em uma trégua, e o Kremlin mais uma vez foi poupado de qualquer dano significativo.

A queda do Kremlin em 1382

Em 1382, o Kremlin enfrentou a primeira ameaça real da Horda Dourada mongol e do Khan Toketamis (c.1342-1406). O príncipe Dmitry fugiu de Moscou à medida que a Horda Dourada se aproximava. O Kremlin resistiu a três dias de cerco – uma impressionante demonstração de resistência contra 30 mil homens treinados.

Ao final, a queda do Kremlin foi resultado de um embuste. O príncipe de Suzdal (ou Susdália), do Principado de Vladimir-Suzdal havia se alinhado com o Khan Toketamis e a Horda Dourada. Eles persuadiram as pessoas de que a desavença deles era apenas com Dmitry, e não com o povo de Moscou. Acreditando nessa mentira, os portões do Kremlin foram abertos e a Horda Dourada atacou. Eles saquearam e queimaram o Kremlin e mataram ou escravizaram milhares. Dmitry retornou ao Kremlin, ampliou as muralhas e defesas e reconstruiu seus edifícios em pedra.

Catedral de São Miguel Arcanjo, Moscou

O Kremlin italiano

No século 15, muitos edifícios do Kremlin estavam deteriorados e em mau estado. Incêndios, um terremoto e as intempéries da natureza haviam cobrado seu preço das estruturas que não haviam sido construídas para durar. Durante seu reinado, Ivan III (Ivan, o Grande, r. 1462-1505) assumiu o grande projeto de reconstruir o Kremlin. Ele queria que Moscou representasse o poder da Rússia, uma cidade que estava sendo referida como a “Terceira Roma”. Durante o Renascimento, o talento dos arquitetos italianos era amplamente admirado por toda a Europa. Em 1474, Ivan III enviou um grupo de representantes à Itália para contratar um arquiteto italiano.

EM 1538, AS MURALHAS DE MADEIRA HAVIAM SIDO SUBSTITUÍDAS POR MURALHAS DE TIJOLOS, SETE PORTÕES E 13 TORRES.

Ridolfo Fioravanti (também conhecido como “Aristotele” Fioravanti, c.1415/1420 to c.1486), um arquiteto de Bolonha, engenheiro e expert em fortificações, foi trazido a Moscou. Seus talentos eram muito demandados, mas Ridolfo decidiu que Moscou seria o melhor lugar para exibir seu trabalho plenamente.

Fioravanti determinou que tijolos fossem usados no Kremlin para fortalecer as estruturas de calcário já existentes e introduziu o uso de pás de metal e um sistema de polia para os construtores. Seus edifícios tinham uma pálida cor creme, dando-lhes um visual elegante. O trabalho mais famoso de Fioravanti foi a Catedral da Dormição (também conhecida como a nova Catedral da Assunção), que foi consagrada em 1479 e é considerada uma das mais sagradas catedrais de Moscou. Depois da morte de Fioravanti, mais arquitetos e engenheiros foram trazidos da Itália.

Em 1480, o arquiteto Marco Ruffo (também conhecido como Marco Fryazin) chegou em Moscou e trabalhou no Palácio Grão-Ducal (1514) e na espetacular Câmara das Facetas (que posteriormente se tornou o Palácio das Facetas), o refeitório da realeza. A pedido de Ivan III, Aloísio, o Novo (comumente identificado como Aloísio Lamberti de Montagnana), começou a construção da nova Catedral de São Miguel Arcanjo (1508), o futuro local de enterro de muitos membros da realeza. Contudo, Ivan III morreu três anos antes do término de sua construção e nunca chegou a ver o resultado final, um bonito edifício de tijolos vermelhos e pedras brancas. O Campanário de Ivan, o Grande, foi concluído em 1508 pelo arquiteto Bon Fryazin e é a mais alta estrutura no Kremlin, desempenhando um papel crucial na defesa do Kremlin como torre de vigilância central.

Campanário de Ivan, o Grande

O arquiteto italiano mais famoso a trabalhar no Kremlin foi Pietro Antonio Solari (c.1445-1493), que chegou em Moscou em 1490 para continuar o trabalho de Fioravanti. Solari construiu a Torre Konstantino-Eleninskaya (Torre de Constantino e Helena) e a Torre Borovitskaya em 1490. Em 1491, Solari completou as mais importantes torres e portões de entrada do Kremlin (a Frolov e a Nikolsky). Solari também completou a principal linha de muralhas e o Palácio das Facetas (1492). Seu último projeto foi a Torre do Arsenal (anteriormente conhecida como Torre Sobakina), na qual ele incluiu um reservatório de água que está em funcionamento até os dias de hoje. Antes de sua morte, Solari recomendou que seu substituto fosse Aloísio de Carcano (também conhecido como Aloísio da Caresana, Aloisio da Milano, Aleviz Milanets e Aleviz Fryazin), que criou um fosso ligando os Rios Moscou e Neglinnaya em 1508.

O sucessor de Ivan III, Basílio III da Rússia (r. 1505-1533), continuou utilizando arquitetos italianos para construir uma segunda linha de muralhas e torres. Em 1538, as muralhas de madeira haviam sido substituídas por muralhas de tijolo, sete portões e 13 torres. O Kremlin havia se tornado um inacessível labirinto de muralhas e torres, cujas defesas e traçados foram mantidos em segredo dos estrangeiros, embora a maior parte tenha sido construída pelos arquitetos e engenheiros italianos.

O Kremlin sob o governo de Ivan, o Terrível

Ivan IV da Rússia (Ivan, o Terrível; r. 1533-1547 como Príncipe de Moscou; r. 1547-1584 como Tsar da Rússia) foi o primeiro governante russo a ser formalmente coroado como Tsar. Durante seu reinado, o Kremlin começou a ganhar sua forma moderna. As ruas receberam paralelepípedos, o Palácio do Tsar foi renovado e ampliado, a Catedral da Anunciação (1489) passou a ter nove domos em seu telhado. O Kremlin estava rapidamente se tornando uma fortaleza para os Tsares e seus amigos mais próximos. Ivan IV tomou as propriedades de comerciantes e nobres e as deu a seus leais apoiadores.

O Kremlin durante o Tempo de Dificuldades

O Tempo de Dificuldades (1598-1612) começou com a morte do Tsar Teodoro I da Rússia (r. 1584-1598), o qual não deixou herdeiros. O que se seguiu foi uma década de morte e destruição enquanto o trono era disputado. Os boiardos (integrantes da nobreza russa) ficaram confinados atrás das altas muralhas do Kremlin. Forças estrangeiras promoveram cercos ao Kremlin, enquanto os edifícios em Moscou, fora de suas muralhas, eram reduzidos a cinzas.

A seu tempo, fome e doenças caíram sobre toda a cidade de Moscou, incluindo sobre aqueles que estavam confinados no Kremlin que, em pouco tempo, se transformou em um símbolo de destruição e morte.

Os Romanovs e o Kremlin

Miguel I da Rússia (Mikhail Fyodorovich Romanov, r. 1613-1645) foi o primeiro Tsar da dinastia Romanov. Seu reino começou logo após o término do chamado Tempo de Dificuldades. As muralhas do Kremlin ainda estavam cobertas de fuligem e escombros bloqueavam suas ruas. Portões foram quebrados e o fosso estava cheio de destroços. Miguel I aumentou os impostos de modo que reparos urgentes pudessem ser feitos. O Palácio das Facetas foi rapidamente reparado de modo que Miguel I pudesse ser coroado lá. Mais uma vez, trabalhadores foram trazidos do exterior para trabalhar no Kremlin, uma vez que materiais e trabalhadores locais eram escassos.

O mais notável projeto de edificação durante o reinado de Miguel I foi o do Palácio dos Terems (anos 1630), construído com tijolos por um time de construtores russos. Era um edifício grandioso com esculturas intrincadas, cores brilhantes, janelas envidraçadas e telhado dourado. O Palácio dos Terems tornou-se a residência principal dos Tsares durante o século 17.

Pilar no Palácio das Facetas

Pedro I da Rússia (Pedro, o Grande), foi o Tsar da Rússia de 1682 a 1721 e imperador da Rússia de 1721 a 1725. Durante seu reinado, o Kremlin era visto como uma fortaleza antiquada com múltiplos problemas. Ele havia sido caiado para invocar seu aspecto original e não era mais tão impressionante ou distinto. Pedro I era inquieto e frequentemente viajava para caçar em sua propriedade em Preobrazhenskoye. Contudo, ele regularmente retornava ao Kremlin para cuidar de questões de estado. Pedro I construiu uma nova cidade chamada São Petersburgo, a qual se tornou a nova capital russa em 1713. O Kremlin permaneceu a residência real, mas rapidamente passou a ser vista como uma velha relíquia.

A imperatriz Isabel da Rússia (r. 1741-1762) empregou seu arquiteto favorito, Francesco Bartolomeo Rastrelli (1700-1771), para construir um Palácio de Inverno (1749) no Kremlin. Esse Palácio de Inverno era de madeira e menos opulento que a versão de São Petersburgo (1754), o qual também foi construído por Rastrelli.

Catarina II da Rússia (Catarina, a Grande, r. 1762-1796) não gostava de Moscou nem do Kremlin; contudo, ela sabia de sua importância para o povo russo e escolheu ser coroada lá. Em 1770, Catarina criou um plano para restaurar as principais catedrais do Kremlin. Catarina II escolheu o arquiteto russo Vasily Bazhenov (1737-1799) para transformar o Kremlin em um lugar à altura do Império Russo. Sendo inspirado pela Basílica de São Pedro, em Roma, e tendo crescido ao redor do Kremlin, ele foi inspirado a fazer grandes mudanças.

NO SÉCULO 19, O KREMLIN SE TORNOU UM SÍMBOLO DO ESPLENDOR E DA GLÓRIA RUSSA.

A visão de Bazhenov incluía um novo palácio grandioso, uma área para realização de paradas militares e azulejos de mármore. Para abrir caminho para esse empreendimento, prédios antigos do Kremlin tiveram de vir abaixo, incluindo a original Primeira Torre Inominada, a Torre Taynitskaya, o Arsenal e a catedral dedicada aos mártires. Bazhenov testou seu trabalho em modelos em miniatura, o que atraiu uma multidão de admiradores. Todas as obras foram suspensas quando uma praga atingiu Moscou em 1771 e somente foram reiniciadas em 1772. Bazhenov fortaleceu e consertou as três principais catedrais e o Campanário de Ivan, o Grande. A pedra fundamental para seu grandioso palácio foi lançada. Colunas dóricas representando a Ásia, a Europa, a África e a América foram colocadas em cada canto do palácio.

Contudo, a construção do palácio rapidamente teve problemas. Catarina estava perdendo interesse no empreendimento. Ela já não possuía mais a mesma dedicação e chegou a faltar na cerimônia da pedra fundamental. O financiamento das obras estava em nível perigosamente baixo. No fim das contas, o legado mais duradouro de Bazhenov no Kremlin foram seus modelos em miniatura. Ele nunca conseguiu construir seu grandioso palácio no Kremlin.

Ao final do século 18, a construção do Kremlin foi transferida para o arquiteto Matvey Fyodorovich Kazakov (1738-1812), que colocou traços góticos no prédio do Senado e em outras estruturas governamentais. Outro arquiteto, Ivan Vasilyevich Egotov (1756-1815), construiu o último Arsenal, o qual posteriormente foi transformado no primeiro museu de história russa.

Catedral da Dormição, Moscou

O ataque de Napoleão ao Kremlin

No século 19, o Kremlin era um símbolo do esplendor e da glória russa. Em 1912, o exército de Napoleão Bonaparte (r. 1804-1815) invadiu a Rússia, derrotou o exército comandado pelo marechal de campo Mikhail Kutuzov (1745-1813) e conquistou o Kremlin. Napoleão ficou no Kremlin por um dia até que incêndios se espalharam novamente por Moscou. O fogo cercou o Kremlin e Napoleão se retirou através de um túnel que terminava às margens do Rio Moscou.

Napoleão ficou no Palácio Petrovsky até que os incêndios fossem extintos. Ele então retornou ao Kremlin e decidiu estabelecer sua residência e corte ali. À medida que o inverno se aproximava, a comida ficava cada vez mais difícil de ser encontrada. Napoleão e seus homens retiraram-se de novo, mas desta vez Napoleão ordenou que o Kremlin fosse destruído. O Palácio das Facetas foi incendiado e barris de pólvora foram colocados ao redor das torres e muralhas. A pólvora, entretanto, umedeceu, e a tentativa de destruir o Kremlin, assim como a invasão da Rússia por Napoleão, foi, sobretudo, um fracasso. Algumas muralhas e torres foram danificadas, mas a Torre Vodovzvodnaya veio abaixo. Um soldado russo afirmou: “enquanto os sinos tocarem, o Kremlin resistirá”.

O arquiteto Fyodor Sokolov (1752-1824) foi contratado para reconstruir o Kremlin. Levou 20 anos até que o Kremlin fosse restaurado ao seu antigo esplendor.

As impressionantes construções no Kremlin

Ao longo dos anos, várias torres, catedrais, igrejas e palácios foram construídos no Kremlin. Dentre eles, incluem-se:

Torres

  • a Torre Taynitskaya (a Torre Secreta), completada em 1485;
  • a Torre Beklemishevskaya (Torre de Beklemishev), completada em 1488;
  • a Torre Vodovzvodnaya (a Torre de Abastecimento de Água), completada em 1488;
  • a Torre Konstantino-Eleninskaya (Torre de São Constantino e Helena), completada em 1490;
  • a Torre Borovitskaya (a Torre da Floresta ou Torre da Colina), completada em 1490;
  • a Torre Spasskaya (a Torre do Salvador), completada em 1491;
  • a Torre Komendantskaya (a Torre do Mandamento), completada em 1495;
  • a Torre Nabatnaya (a Torre de Alarme), completada em 1495;
  • a Torre Oruzheynaya (a Torre do Arsenal), completada em 1495;
  • a Torre Troitskaya (a Torre da Trindade), completada em 1499;
  • o Campanário de Ivan, o Grande, completado em 1508.

Catedrais e Igrejas

  • a Igreja da Natividade da Mãe de Deus, consagrada em 1394;
  • a Catedral da Dormição (Catedral da Assunção), consagrada em 1479;
  • a Igreja da Deposição das Vestes, consagrada em 1485;
  • a Catedral da Anunciação, consagrada em 1489;
  • a Catedral de São Miguel Arcanjo, consagrada em 1489;
  • a Catedral de São Basílio, consagrada em 1561;
  • a Igreja dos Doze Apóstolos, consagrada em 1656.

Palácios

  • o Palácio das Facetas, completado em 1492;
  • o Palácio dos Terems, completado em 1636;
  • o Grande Palácio do Kremlin, completado em 1849;
  • o Palácio Estatal do Kremlin, completado em 1961.

Grande Palácio do Kremlin, Moscou

O Kremlin hoje

O Kremlin é um dos marcos históricos mais famosos e visitados da Rússia. Ele tem tido um papel fundamental na história da realeza, da política, da religião e da defesa da Rússia. Atualmente, ele permanece como centro do governo russo. O Grande Palácio do Kremlin tornou-se a residência oficial do presidente russo em 2023.

O Kremlin ainda permanece uma fortaleza em todos os sentidos da palavra. Sua forte segurança é supervisionada pelo Gabinete do Comissário do Kremlin de Moscou e pelo Regimento do Kremlin (Regimento Presidencial). Há estritos protocolos de segurança estabelecidos para proteger seu patrimônio histórico, tais como sistemas de bloqueio de GPS e proteção pela Defesa Aérea da Região de Moscou. Apesar de toda a segurança, turistas são permitidos a visitar o Kremlin, com milhares de visitantes atraídos todos os anos por suas imponentes catedrais com domos dourados, muralhas vermelhas, torres e telhados multicoloridos. O Kremlin tem visto o melhor e o pior da história russa e continuará a desempenhar um papel essencial no futuro da Rússia.

Perguntas e respostas

Por que o Kremlin é tão famoso?

O Kremlin tem sido o centro da política e da realeza russa por centenas de anos. É um dos marcos históricos mais famosos da Rússia.

Qual a idade do Kremlin?

O Kremlin original foi construído no século 12. Desde então, construções, muralhas e torres têm sido destruídas e reconstruídas muitas vezes.

É possível visitar o Kremlin?

Sim, o Kremlin é uma das atrações turísticas mais populares da Rússia. Há empresas que ajudam a organizar uma visita ao Kremlin.

O presidente russo mora no Kremlin?

Sim, o Grande Palácio do Kremlin tornou-se a residência oficial do presidente russo em 2023.

Miate, Liana. “Kremlin.” Traduzido por Elmer Marques. World History Encyclopedia. Última modificação Janeiro 25, 2024. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-22579/kremlin/.

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Uma visão Básica da História da Música

A História da música é muito antiga, visto que desde os primórdios os homens produziam diversas formas de sonoridade.

Esse é um tipo de arte que trabalha com a harmonia entre os sons, o ritmo, a melodia, a voz.
Todos esses elementos são importantes e podem nos transportar para outro tempo e espaço, resgatar memórias e reacender emoções.

Veremos como essa linguagem artística caminhou durante os séculos até os nossos dias para adquirir as características que possui hoje no Ocidente.

Música na Pré-História

Pintura rupestre encontrada na Espanha exibe várias pessoas dançando, o que sugere a presença de música também

A humanidade possui uma relação longa com a música, sendo essa umas das formas de manifestação cultural mais antigas.

Ainda na pré-história, há mais de 50 mil anos, os seres humanos começaram a desenvolver ações sonoras baseadas na observação dos fenômenos da natureza.

Os ruídos das ondas quebrando na praia, os trovões, a comunicação entre os animais, o barulho do vento balançando as árvores, as batidas do coração; tudo isso influenciou as pessoas a também explorarem os sons que seus próprios corpos produziam. Como, por exemplo, os sons das palmas, dos pés batendo no chão, da própria voz, entre outros.

Nessa época, tais experimentações não eram consideradas arte propriamente e estavam relacionadas à comunicação, aos ritos sagrados e à dança.

A Evolução da Música

Música no Egito

Representação de músicos no Antigo Egito

No Egito Antigo, ainda em 4.000 a.C., a música era muito presente, configurando um importante elemento religioso. Os egípcios consideravam que essa forma de arte era uma invenção do deus Thoth e que outro deus, Osíris, a utilizou como uma maneira para civilizar o mundo.

A música era empregada para complementar os rituais sagrados em torno da agricultura, que era farta na região. Os instrumentos utilizados eram harpas, flautas, instrumentos de percussão e cítara – que é um instrumento de cordas derivado da lira.

Música na Mesopotâmia

Músicos assírios tocando instrumentos

Na região da Mesopotâmia, localizada entre os rios Tigre e Eufrates, habitavam os povos sumérios, assírios e babilônios. Foram encontradas harpas de 3 a 20 cordas na região onde os sumérios viviam e estima-se que sejam objetos com mais de 5 mil anos. Também foram descobertas cítaras que pertenceram ao povo assírio.

Música na China e na Índia

À esquerda, representação de pessoa tocando instrumento na Índia; à direita, flautas chinesas encontradas por arqueólogos

Na Ásia – em torno de 3.000 a.C. – a atividade musical prosperou na Índia e China. Nessas regiões, ela também estava fortemente relacionada à espiritualidade.

O instrumento mais popular entre os chineses era a cítara e o sistema musical utilizado era a escala de cinco tons – pentatônica.

Já na Índia, em 800 a.C., o método musical era o de “ragas”, que não utilizava notas musicais e era composto de tons e semitons.

Música na Grécia e em Roma

Representação de pessoa tocando instrumento na Grécia Antiga

Podemos observar que a cultura musical na Grécia Antiga funcionava como uma espécie de elo entre os homens e as divindades. Tanto que a palavra “música” provém do termo grego mousikē, que significa “a arte das musas”. As musas eram as deusas que guiavam e inspiravam as ciências e as artes.

É importante ressaltar que Pitágoras, grande filósofo grego, foi o responsável por estabelecer relações entre a matemática e a música, descobrindo as notas e os intervalos musicais.

Sabe-se que na Roma Antiga, muitas manifestações artísticas foram heranças da cultura grega, como a pintura e a escultura. Supõe-se, dessa forma, que o mesmo ocorreu com a música. Entretanto, diferente dos gregos, os romanos usufruíam dessa arte de maneira mais ampla e cotidiana.

Música na Idade Média

Pintura exibindo cantores medievais

Durante a Idade Média a Igreja Católica esteve bastante presente na sociedade europeia e ditava a conduta moral, social, política e artística.

Naquela época, a música teve uma presença marcante nos cultos católicos. O Papa Gregório I – século VI – classificou e compilou as regras para o canto que deveria ser entoado nas cerimônias da Igreja e intitulou-o como canto gregoriano.

Outra expressão musical do período que merece destaque são as chamadas Cantigas de Santa Maria, que agregam 427 composições produzidas em galego-português e divididas em quatro manuscritos.

Uma importante compositora medieval foi Hidelgard Von Bingen, também conhecida como Sibila do Reino.

Música no Renascimento

Pintura de Gerard van Honthorst (1623) retratando músicos no Renascimento

Já na época renascentista – que compreende o século XIV até o século XVI – a cultura sofreu transformações e os interesses estavam voltados para a razão, a ciência e o conhecimento do próprio ser humano.

Tais preocupações se refletiram também na música, que apresentava características mais universais e buscava se distanciar dos costumes da Igreja.

Uma característica significativa da música nesse período foi a polifonia, que compreende a combinação simultânea de quatro ou mais sons.

Podemos citar como um grande compositor da Renascença Thomas Weelkes.

Música no Barroco

O compositor italiano Antonio Vivaldi foi um grande expoente da música barroca

A partir do século XVII, o movimento barroco promove mudanças marcantes no cenário musical.

Foi um período bastante fértil e importante para a música ocidental e apresentava novos contornos tonais, com a utilização do modo jônico (modo “maior”) e modo eólio (modo “menor”).

O surgimento das óperas e das orquestras de câmaras também acontece nessa fase, assim como o virtuosismo dos músicos ao tocar os instrumentos. Os maiores representantes da música barroca foram Antonio Vivaldi, Johann Sebastian Bach, Domenico Scarlatti, entre outros.

Música no Classicismo

Retrato dos artistas Haydn, Mozart e Beethoven

No Classicismo, que corresponde ao período em torno de 1750 e 1830, a música adquire objetividade, equilíbrio e clareza formal, conceitos já utilizados na Grécia Antiga.

Nessa época, a música instrumental e as orquestras ganham ainda mais destaque. O piano toma o lugar do cravo e novas estruturas musicais são criadas, como a sonata, a sinfonia, o concerto e o quarteto de cordas.

Os artistas que se sobressaíram são Haydn, Mozart e Beethoven.

Música no Romantismo

Pintura retratando o compositor Fréderic Chopin

No século XIX, o movimento cultural que surgiu na Europa foi o Romantismo. A música predominante tinha como qualidades a liberdade e a fluidez, e primava também pela intensidade e vigor emocional.

Esse período musical é inaugurado pelo compositor alemão Beethoven – com a Sinfonia nº3 – e passa por nomes como Chopin, Schumann e sua esposa Clara Shumann, Wagner, Verdi, Tchaikovsky, R. Strauss, entre outros.

Música no Século XX

No século XX, a música ganha nova roupagem e uma grande transformação ocorre com o surgimento do rádio.

Novas tecnologias e suportes para a gravação e divulgação musical ajudam a popularizar essa linguagem artística e projetar cantores e compositores, já que eles não dependiam somente dos concertos musicais.

Com uma cartela de opções mais variadas, o público começa a ter contato com outros tipos de música.

É importante também destacar a presença da música atonal – ou seja, que não possui um centro tonal nem uma tonalidade preponderante. Há também a dodecafônica, que trata as doze notas da escala cromática como equivalentes.

Alguns artistas também passam a incorporar novos elementos em suas produções, como instrumentos até então pouco explorados e objetos sonoros.

Um exemplo é o multi-instrumentista brasileiro Hermeto Pascoal, que tira sons tanto de flautas e pianos como de objetos do cotidiano como chaleiras, pentes, copos d’água e brocas de dentistas. A compositora Adriana Calcanhoto também possui um projeto de música infantil que faz uso de diversos brinquedos para produzir suas composições.

Podemos citar como grandes nomes da música do século XX o brasileiro Heitor Villa-Lobos, o russo Igor Stravinsky, o nigeriano Fela Kuti, a pianista carioca Chiquinha Gonzaga, o norte-americano Louis Armstrong, a francesa Lili Boulanger, o argentino Astor Piazzolla, e muitos outros.

AIDAR, Laura. História da Música. Toda Matéria[s.d.]. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/historia-da-musica/. Acesso em: 25 abr. 2024

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Alexandre, o Grande

Alexandre III da Macedônia

Mosaico de Alexandre, o Grande, e Bucéfalo

Alexandre III da Macedônia, mais conhecido como Alexandre, o Grande (v. 21 de julho de 356 – 10 ou 11 de Junho de 323 a.C., r. 336-323 a.C.) era filho do Rei Filipe II da Macedônia (r. 359-336 a.C.). Ele ascendeu ao trono com a morte do pai, em 336 a.C., e conquistou a maior parte do mundo conhecido na época.

Alexandre, o Grande (Reconstituição Facial) – Arienne King (CC BY-NC-SA)

É chamado de “o Grande” tanto por seu gênio militar quanto pelo talento diplomático em lidar com as várias populações das regiões que conquistou. Alexandre disseminou a cultura, linguagem e pensamento gregos pela Ásia Menor, Egito, Mesopotâmia e até a Índia, assim iniciando a era do Período Helenístico (323-21 a.C.). Este processo continuou com quatro de seus generais (seus sucessores, conhecidos como Diádocos) que, durante as guerras pela supremacia, continuaram sua política de integração da cultura grega (helenística) com a do Oriente Próximo. Ele morreu de causas desconhecidas em 323 a.C., sem ter nomeado claramente um sucessor (ou, de acordo com alguns relatos, sua escolha do comandante Pérdicas teria sido ignorada) e o império que construiu foi dividido entre os Diádocos.

As campanhas de Alexandre tornaram-se lendárias, influenciando as táticas e carreiras de generais gregos e romanos posteriores, bem como inspirando numerosas biografias posteriores que lhe atribuíram um status semidivino. Os historiadores modernos adotam uma abordagem mais crítica em relação à sua vida e carreira, como demonstrado pela crítica à destruição de Persépolis e ao tratamento dispensado aos cidadãos de Tiro. Porém, o consenso geral referente ao seu legado, entre os estudiosos ocidentais, de qualquer forma, permanece em sua maior parte positivo e Alexandre continua sendo uma das personagens mais populares e reconhecíveis da história mundial.

A Juventude de Alexandre

Quando Alexandre era jovem, foi ensinado a lutar e montar a cavalo por Leônidas do Épiro, um parente de sua mãe, Olímpia, assim como a suportar privações típicas de soldados, tais como marchas forçadas. Seu pai, Filipe, estava interessado em criar um futuro rei refinado e, assim, contratou Lisímaco de Acarnânia para ensinar ao garoto a ler, escrever e tocar a lira. Esta educação instilaria em Alexandre um amor duradouro pela leitura e música. Com a idade de 13 ou 14 anos, ele conheceu o filósofo grego Aristóteles (v. 384-322), que Filipe havia contratado como um tutor particular. Seus estudos com Aristóteles durariam até os 16 anos e acredita-se que mantiveram uma correspondência durante todas as campanhas posteriores de Alexandre, embora não haja evidências concretas a respeito.

A influência de Aristóteles manteve-se no relacionamento com os povos que conquistou, pois Alexandre jamais impôs a cultura grega sobre os habitantes das várias regiões subjugadas, mas apenas a apresentava, da mesma forma que o filósofo usava para ensinar seus alunos. A influência de Leônidas pode ser verificada na duradoura resiliência e energia física de Alexandre, bem como em sua habilidade como cavaleiro. Conta-se que ele domou o “incontrolável” Bucéfalo quando tinha apenas 11 ou 12 anos.

Seus tutores certamente exerceram uma profunda influência sobre ele, mas Alexandre parecia destinado à grandeza desde o nascimento. Ele teve, em primeiro lugar, um pai cujas realizações proporcionaram uma base sólida para seus sucessos posteriores. O historiador Diodoro Sículo observa:

Durante os vinte e quatro anos de seu reinado na Macedônia, que ele iniciou com recursos bastante escassos, Filipe transformou seu reino em um dos maiores poderes da Europa […] Ele projetou a derrubada do Império Persa, desembarcou forças na Ásia e estava no processo de libertar as comunidades helenísticas quando foi interrompido pelo Destino – a despeito do qual, ele deixou de herança uma força militar de tal tamanho e qualidade que seu filho Alexandre foi capaz de derrotar o Império Persa sem requerer a assistência de aliados. Estas realizações não aconteceram pela ação da Fortuna, mas pela sua própria força de caráter, pelo que este rei se eleva sobre todos os outros pela sua perspicácia militar, coragem pessoal e brilhantismo intelectual. (Livro XVI.ch.1)

Ainda que claramente seu pai tenha tido um grande impacto sobre ele, o próprio Alexandre escolheu acreditar que seu sucesso se devia a forças divinas. Chamava-se filho de Zeus e, assim, reivindicava o status de um semideus, ligando sua linhagem aos seus heróis favoritos da Antiguidade, Aquiles e Hércules, e modelando seu comportamento neles. Esta crença foi instilada nele por Olímpia, que chegou a afirmar ter sido engravidada pelo próprio Zeus, ou seja, Alexandre teria nascido de uma concepção virginal. Grandes sinais e presságios marcaram seu nascimento, tais como uma estrela brilhante resplandecendo sobre a Macedônia naquela noite e a destruição do Templo de Ártemis, em Éfeso. Plutarco escreve:

Alexandre nasceu no sexto dia de Hecatombaeon, o mês que os macedônios chamam Lous, o mesmo dia em que o templo de Diana, em Éfeso, foi incendiado; como testemunha Hegésias de Magnésia, que faz disso uma ocorrência tão fria que teria sido suficiente para extinguir o incêndio do templo. O templo, diz ele, pegou fogo e foi destruído enquanto sua senhora estava ausente, ajudando no nascimento de Alexandre. Todos os adivinhos orientais que estavam na ocasião em Éfeso, buscando nas ruínas do templo um sinal de alguma outra calamidade, correram pela cidade, golpeando os próprios rostos e gritando que este dia havia trazido alguma coisa que se mostraria fatal e destrutiva para toda a Ásia. (Plutarco, Vida de Alexandre, I)

NO ORÁCULO DE SIWA, ELE FOI PROCLAMADO FILHO DO DEUS ZEUS-AMON.

Embora seu nascimento esteja bem documento pelos historiadores, há pouca informação sobre sua juventude, além das fábulas sobre sua precocidade (ele teria interrogado dignatários que visitavam a Macedônia sobre as fronteiras e pontos fortes da Pérsia quando tinha sete anos), seus tutores e amigos de infância. Os amigos de Alexandre – Cassandro (v.c. 355-297 a.C.), Ptolomeu (v.c. 367-282 a.C.) e Heféstion (v.c. 356-324 a.C.), tornariam-se companhias de toda a vida e generais em seu exército.

Calístenes (v.c. 360-327 a.C.), outro amigo, era sobrinho-neto de Aristóteles e veio para a corte macedônia com o filósofo. Mais tarde, atuaria como historiador da corte e acompanharia Alexandre em campanha. Heféstion permaneceu seu melhor e mais querido amigo através de toda a vida, além de segundo em comando no exército. Sobre a juventude de Alexandre, o historiador Worthington afirma que Alexandre “seria educado em casa, como era costume na Macedônia e cresceria acostumado a assistir (e então participar) nas competições etílicas, parte da vida na corte”, mas que, à parte essas informações, “sabemos surpreendentemente pouco sobre a infância de Alexandre” (33).

Queroneia e Campanhas Iniciais

O talento militar de Alexandre começou a ser notado na Batalha de Queroneia, em 338 a.C. Ainda que com apenas 18 anos, ele ajudou reverter o rumo da batalha nesta vitória decisiva dos macedônios, que derrotaram cidades-estados gregas aliadas. Quando Filipe II foi assassinado, em 336 a.C., Alexandre assumiu o trono e, com as cidades-estados gregas agora unidas sob o poder macedônio após Queroneia, iniciou a grande campanha que seu pai havia planejado: a conquista do poderoso Império Persa. Worthington declara:

Homero era a bíblia de Alexandre e ele levou a edição de Aristóteles com ele para a Ásia […]. Durante suas campanhas, Alexandre sempre procurava descobrir tudo o que podia sobre as regiões pelas quais passava. Levou com ele uma comitiva de estudiosos para registrar e analisar tais informações sobre botânica, biologia, zoologia, meteorologia e topografia. Seu desejo de aprender e ter os dados registrados tão cientificamente quanto possível, provavelmente resultaram dos ensinamentos e entusiasmo de Aristóteles. (34-35)

Com um exército macedônio de 32.000 homens na infantaria e 5.100 na cavalaria, Alexandre fez a travessia para a Ásia Menor em 334 a.C. e começou sua conquista do Império Persa Aquemênida, derrotando um exército liderado por sátrapas na Batalha de Grânico, em maio. Ele então “libertou” (como classificava suas conquistas) as cidades de Sardis e Éfeso do domínio persa no mesmo ano, antes de se dirigir a outras da Ásia Menor. Em Éfeso, ofereceu-se para reconstruir o Templo de Ártemis, que havia sido destruído por um incêndio na noite de seu nascimento, mas a cidade rejeitou a proposta. Em 333 a.C., Alexandre e suas tropas derrotaram um exército maior, liderado pelo próprio Rei Dário III da Pérsia (r. 336-330 a.C.), na Batalha de Issos. Ele continuou e saqueou as cidades fenícias de Baalbek e Sidon (que tinha se rendido) em 332 a.C., e então sitiou a cidade insular de Tiro.

Tão determinado estava em conquistar a antiga cidade que construiu um caminho elevado da terra firme até a ilha, no qual montou suas máquinas de sítio. Este caminho aumentou progressivamente, graças ao acúmulo de lama e terra, e esta é a razão pela qual Tiro faz parte do continente, no atual Líbano. Como punição pela teimosa resistência, os habitantes da cidade foram massacrados e os sobreviventes vendidos como escravos. Esta decisão referente aos cidadãos de Tiro é citada por historiadores, tanto antigos como modernos, como um exemplo básico do caráter implacável de Alexandre quando desafiado.

Em 331 a.C., conquistou o Egito e fundou a cidade de Alexandria. No Oráculo de Siwa, situado no oásis egípcio homônimo, foi Alexandre foi proclamado filho do deus Zeus-Amon.

Busto de Bronze de Alexandre, o Grande

As Campanhas Persas

Em 331 a.C., Alexandre reencontrou o Rei Dário III no campo de batalha em Gaugamela (também chamada de Batalha de Arbela) onde, novamente em grande inferioridade numérica, derrotou decisivamente o soberano persa, que fugiu do combate. Babilônia e Susa renderam-se incondicionalmente, sem resistência. No inverno de 330 a.C., Alexandre marchou sobre Persépolis, encontrando oposição na Batalha dos Portões Persas, defendidos pelo herói Ariobarzanes (v. 386-330 a.C.) e sua irmã, Youtab Aryobarzan (d. 330 a.C.), no comando das tropas. O rei macedônio os derrotou e tomou Persépolis, que então foi destruída pelo fogo.

De acordo com o antigo historiador Diodoro Sículo (e outras fontes da Antiguidade), o próprio Alexandre iniciou o fogo, que destruiu o palácio principal e a maior parte da cidade, como vingança pelo incêndio da Acrópole, em Atenas, durante a invasão do rei persa Xerxes, em 480 a.C. Esta ação teria sido instigada por Taís, a amante ateniense do general Ptolomeu, durante uma festa de bêbados, com a afirmação de que seria uma vingança adequada se a cidade fosse queimada “pelas mãos de uma mulher”. Conta-se que ela teria atirado sua tocha logo após Alexandre ter jogado a primeira.

No verão de 330 a.C., Dário III foi assassinado por seu próprio general e primo, Besso, uma atitude que Alexandre teria reprovado. O cadáver de Dário III foi tratado com o maior respeito, assim como os membros sobreviventes da sua família. Alexandre proclamou-se Rei da Ásia e continuou com sua conquista, marchando para o interior do atual Afeganistão. Em 329 a.C., fundou a cidade de Alexandria-Escate no Rio Iaxartes, destruiu a cidade de Cirópolis e derrotou os citas nas fronteiras setentrionais do império. Entre o outono de 330 a.C. e a primavera de 327 a.C., lutou contra Báctria (Báctria foi uma província do Império Persa, localizada onde hoje se encontram o Afeganistão, Uzbequistão e Tajiquistão) e Sogdiana, em duros combates que terminou vencendo, como havia ocorrido com cada batalha até o momento. Besso acabou capturado e executado pela traição contra o rei persa, numa mensagem clara de que deslealdades deste tipo não seriam toleradas.

Durante este período, Alexandre fundou muitas cidades que levavam seu nome para solidificar a imagem não somente de “libertador”, mas como a de um deus, adotando também o título Shahanshah (Rei dos Reis), usado pelos governantes do Primeiro Império Persa. Em consequência deste status, ele introduziu o costume persa da proskynesis ao exército, segundo o qual aqueles que se dirigiam a ele deveriam em primeiro lugar ajoelhar-se e beijar sua mão.

As tropas macedônias ficaram cada vez mais desconfortáveis com a aparente deificação de Alexandre e a adoção de costumes persas. Conspirações de assassinato foram planejadas (principalmente em 327 a.C.), mas terminaram descobertas e os conspiradores executados, mesmo que fossem velhos amigos. Calístenes tornou-se um deles, ao ser implicado numa das conspirações. Cleito, o velho político que havia salvo a vida de Alexandre na Batalha de Grânico, acabaria condenado de forma semelhante. Em c. 327 a.C., Alexandre desfez-se tanto de Calístenes quanto de Cleito, em incidentes separados, por traição e por questionar sua autoridade, respectivamente.

O hábito de Alexandre de beber em excesso era bem conhecido e, no caso da morte de Cleito, certamente influenciou de forma significativa o assassinato. Tanto Cleito quanto Calístenes haviam se tornado críticos abertos da adoção dos costumes persas pelo rei. Embora capaz de grande diplomacia e habilidade em lidar com os povos conquistados e seus governantes, Alexandre não era conhecido por tolerar opiniões pessoais que conflitavam com as suas próprias, uma tendência só exacerbada quando bebia. A morte de Cleito foi rápida, através de uma lança que Alexandre atirou contra ele, enquanto Calístenes foi preso e morreu durante o confinamento.

Mapa das Conquistas de Alexandre, o Grande

Índia e Motim

Em 327 a.C., com o Império Persa firmemente sob seu controle e recém-casado com a nobre bactriana Roxana (v. c. 340-c. 310 a.C.), Alexandre voltou sua atenção para a Índia. Após tomar conhecimento das façanhas do grande general macedônio, o rei indiano Omphis de Taxila submeteu-se à sua autoridade sem luta, mas as tribos Aspasioi e Assakenoi resistiram ferozmente. Em batalhas realizadas de 327 a 326 a.C., Alexandre subjugou estas tribos, e finalmente defrontou-se com o Rei Poro de Paurava na Batalha do Rio Hidaspes, em 326 a.C.

Poro atacou as forças de Alexandre com elefantes e lutou tão bravamente com suas tropas que, após derrotá-lo, Alexandre o nomeou governante de uma região maior do que a que havia reinado anteriormente. Seu cavalo predileto, Bucéfalo, foi morto nesta batalha e Alexandre chamou uma das duas cidades que fundou após o combate como “Bucéfala” em homenagem ao animal.

Alexandre pretendia marchar e cruzar o Rio Ganges em direção a futuras conquistas, mas suas tropas, esgotadas após o duro combate contra Poro (no qual, de acordo com Arriano, teriam sido perdidos 1.000 homens), amotinaram-se em 326 a.C. e se recusaram a ir adiante. O rei tentou persuadir seus homens a prosseguir, mas, falhando em convencê-los, finalmente concordou com seus desejos. Ele dividiu o exército em dois, enviando metade de volta a Susa pelo mar, através do Golfo Pérsico, sob o comando do Almirante Nearco, e marchou com a outra metade através do Deserto Gedrosiano em 325 a.C., quase um ano depois do motim das tropas.

As justificativas por trás desta decisão, tanto em adiar a retirada após o motim e a forma como finalmente ocorreu, não estão claras e ainda são debatidas pelos historiadores. Mesmo que tivesse abandonado sua conquista da Índia, Alexandre ainda interrompia sua marcha para subjugar as tribos hostis que encontrava pelo caminho. O áspero terreno do deserto e os combates cobraram seu preço e, quando alcançou Susa, em 324 a.C., Alexandre tinha sofrido baixas consideráveis em suas tropas.

Após seu retorno, descobriu que muitos sátrapas a quem havia confiado o governo tinham abusado do seu poder e, assim, os executou, assim como aqueles que haviam vandalizado a tumba de Ciro, o Grande (r. c. 550-530 a.C.), na velha capital de Pasárgada. Ele ordenou que a antiga capital e a tumba fossem restauradas e tomou outras medidas para integrar seu exército com os povos da região, mesclando as culturas persa e macedônia.

O rei presidiu uma cerimônia de casamento coletivo em Susa, em 324 a.C., na qual uniram-se membros mais proeminentes do seu staff com princesas e nobres persas, enquanto ele mesmo se casou com uma filha de Dário III para consolidar sua identidade com a realeza persa. Muitos em suas tropas objetavam a esta fusão cultural e criticavam cada vez mais a adoção de vestimentas persas e os maneirismos que vinha adotando desde 329 a.C. Também resistiam à promoção de persas no lugar de macedônios nos exércitos e à ordem do rei de fundir unidades macedônias e persas. Alexandre respondeu nomeando persas para posições proeminentes no exército e concedendo títulos e honrarias tradicionais macedônias às unidades persas.

Suas tropas recuaram e se submeteram aos desejos de Alexandre e, num gesto de boa vontade, ele devolveu os títulos aos macedônios e ordenou uma grande festa comunal, na qual jantou e bebeu com o exército. Alexandre já havia abandonado a obrigatoriedade do costume da proskynesis, em deferência a seus homens, mas continuou a se comportar como um rei persa, em vez de macedônio.

Por volta desta época, em 324 a.C., Heféstion, amigo de toda a vida, possivelmente amante, e também segundo em comando de Alexandre, morreu de uma febre, embora alguns relatos sugiram que ele pode ter sido envenenado. A alegação de que Alexandre era homossexual ou bissexual aparece em biografias escritas após sua morte e Heféstion é rotineiramente indicado como seu amante, bem como melhor amigo. Os relatos dos historiadores sobre a reação de Alexandre a este evento concordam que seu pesar foi insuportável.

Plutarco afirma que Alexandre massacrou os cosseanos de uma tribo vizinha em sacrifício a seu amigo e Arriano relata que ele mandou executar o médico de Heféstion por falhar em curá-lo. As crinas e caudas dos cavalos foram cortadas em sinal de luto e Alexandre se recusou a promover outra pessoa para a posição de Heféstion como comandante da cavalaria. Ele começou um jejum e declarou um período de luto através de todo o império, além de ritos funerários geralmente reservados a um rei.

A Morte de Alexandre

Ainda pesaroso pela morte de Heféstion, Alexandre retornou à Babilônia em 323 a.C., com planos de expandir seu império, mas jamais iria realizá-los porque morreu em 10 ou 11 de Junho de 323 a.C., aos 32 anos de idade, após sofrer com dez dias de febre alta. As teorias referentes à causa da morte variam entre envenenamento, malária, meningite e até infecção bacterial ao beber água contaminada (entre outras).

Plutarco diz que, 14 dias antes da morte, Alexandre divertiu-se com seu almirante Nearcos e seu amigo Médio de Larissa numa longa sessão de bebedeira, após a qual caiu doente com uma febre da qual não se recuperou. Quando foi perguntado sobre quem deveria sucedê-lo, Alexandre disse: “o mais forte”, resposta que levou seu império a ser dividido entre quatro de seus generais: Cassandro, Ptolomeu, Antígono e Seleuco, conhecidos como Diadochi (Diádocos) ou “sucessores”.

Sarcófago de Alexandre (detalhe)

Plutarco e Arriano, porém, alegam que ele passou seu reino para Pérdicas, o amigo de Heféstion com o qual Alexandre havia carregado seu corpo para a pira funerária na Babilônia. Pérdicas era também amigo de Alexandre, bem como seu guarda-costas e companheiro de cavalgadas. Considerando o hábito do rei de recompensar os mais próximos com favores, faz sentido que indicasse Pérdicas em detrimento aos demais. Seja como for, após a morte de Alexandre, seus generais ignoraram seus desejos e Pérdicas acabou assassinado em 321 a.C.

Os Diádocos

Seu camarada de longa data, Cassandro, ordenaria as execuções de Roxana e do filho desta com Alexandre, além de Olímpia, para consolidar o poder como o novo rei da Macedônia. Afirma-se que Ptolomeu I roubou o cadáver de Alexandre quando estava sendo transportado para a Macedônia e o levou furtivamente para o Egito, na esperança de tornar realidade uma profecia segundo a qual o lugar onde ele jazesse seria próspero e inconquistável. Ele fundaria a Dinastia Ptolemaica no Egito, que duraria até 30 a.C., terminando com a morte de sua descendente, Cleópatra VII (v. 69-30 a.C.).

Seleuco fundou o Império Selêucida (312-63 a.C.), compreendendo a Mesopotâmia, Anatólia e parte da Índia e seria o último remanescente dos Diádocos após 40 anos de incessantes guerras entre eles e seus herdeiros. Veio a ser conhecido como Seleuco I Nicator (Invencível, r. 305-281 a.C.). Nenhum dos generais de Alexandre possuía sua inteligência natural, compreensão ou gênio militar, mas, ainda assim, eles fundaram dinastias que, com exceções, governariam suas respectivas regiões até a ascensão de Roma.

Sua influência sobre estas áreas criaria o que os historiadores chamam de Período Helenístico, no qual haveria a introdução e fusão do pensamento e cultura dos gregos com os costumes destas populações. De acordo com Diodoro Sículo, uma das cláusulas do testamento de Alexandre previa a criação de um império unificado entre os antigos inimigos. Pessoas do Oriente Próximo deveriam ser encorajadas a se casar com europeus e vice-versa; assim, uma nova cultura helenística seria adotada por todos. Ainda que os Diádocos tenham falhado no atendimento pacífico aos desejos de Alexandre, a helenização de seus impérios contribuiu para o sonho de unidade cultural, mesmo que ela jamais se concretizasse completamente.

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Islamismo

Portões da Mesquista do Profeta, em Medina

O Islã é uma religião monoteísta abraâmica baseada nos ensinamentos do profeta Muhammad ibn Abdullah (570-632 d.C., [conhecido em português como Maomé] e após seu nome os muçulmanos tradicionalmente acrescentam: “que a paz esteja com ele”). Ao lado do Cristianismo e do Judaísmo, o Islamismo é também um desdobramento dos ensinamentos de Abraão (apresentado nas escrituras judaicas e cristãs, e considerado um profeta no Islã, e após seu nome os muçulmanos dizem, igualmente, “que a paz esteja com ele”), mas difere de ambos em alguns aspectos. Os adeptos do Islamismo são chamados de muçulmanos, dos quais existem cerca de dois bilhões no mundo hoje, perdendo em número apenas para os cristãos.

Após criarem raízes na Península Arábica, os seguidores de Maomé conseguiram conquistar as superpotências da época: o Império Sassânida e o Império Bizantino. Em seu auge (no ano de 750), o Império Islâmico se estendia entre o atual Paquistão, a leste, e ao Marrocos e à Península Ibérica, a oeste. Embora inicialmente tendo-se expandido por meio das conquistas, o Islã floresceria depois por meio do comércio, expandindo-se para além de suas fronteiras iniciais e ao redor do mundo. Atualmente, é a religião que mais cresce no planeta.

A Missão do Profeta

O profeta Maomé nasceu no ano 570. Ele era membro do clã Coraixita, de Banu Hashim, um grupo bastante respeitado, apesar de sua declinante riqueza. Órfão em tenra idade, foi criado por seu tio Abu Talib, que, segundo dizem, amava-o ainda mais do que a seus próprios filhos. Maomé se tornou comerciante e era conhecido por sua honestidade (o que era uma característica rara na Arábia daquela época), atraindo assim a atenção de uma viúva rica chamada Cadija, que lhe enviou uma proposta de casamento, aceita por ele, apesar de ela ser 15 anos mais velha (Maomé tinha 25 anos na época). O apoio de Cadija a Maomé foi fundamental para que o Profeta cumprisse sua missão.

MAOMÉ COMEÇOU A PREGAR A UNIDADE DE DEUS PARA SUA FAMÍLIA E AMIGOS MAIS PRÓXIMOS, E DEPOIS, PARA O PÚBLICO GERAL.

Quando próximo de seus quarenta anos, ele começou a adorar a Deus em reclusão, em uma caverna chamada Hira, na montanha Jabal al-Nour (“Montanha da Luz”), perto da cidade de Meca. Diz-se que um dia, no ano de 610, o anjo Gabriel aproximou-se dele com a primeira revelação de Deus – Alá (que significa “o Deus”). Maomé, a princípio, teria reagido negativamente à revelação – perplexo e assustado, voltou correndo para casa, tremendo de medo – mas, depois, percebeu que era um profeta de Deus.

Maomé começou a pregar a unidade de Deus para sua família e amigos mais próximos, e depois, para o público geral. A Arábia era politeísta na época e, portanto, a pregação de Maomé de um único deus o colocou em conflito com os habitantes de Meca, cuja economia dependia do politeísmo (os mercadores vendiam estatuetas, figuras e amuletos dos vários deuses) e da estratificação social nele baseada. Os habitantes de Meca tomaram sérias medidas para impedi-lo, mas ele continuou a pregar a nova fé, já que entendia que devia a Deus que o fizesse. No ano de 619, ele perdeu seu tio Abu Talib e sua esposa Cadija (uma data conhecida pelos muçulmanos como O Ano da Dor), e passou a sentir-se solitário e profundamente angustiado, o que se agravou pela perseguição que sofreu em Meca.

Entrada da Caverna de Hira

Em seu socorro, em 621, alguns cidadãos de Yathrib (mais tarde conhecida como Medina), que aceitaram o Islã, convidaram o Profeta e seus seguidores para irem à sua cidade. Em 622 Maomé fugiu de Meca para escapar das conspirações contra sua vida (uma fuga conhecida como Hégira, que marca o início do calendário muçulmano), e foi para Yathrib. Na cidade, admirava-se seus ensinamentos e quiseram que o profeta atuasse como seu governante. Maomé encorajou seus seguidores em Meca a migrarem para Yathrib, e eles o fizeram em bandos. Apenas depois que a maioria de seus companheiros já havia partido, ele migrou com um amigo de confiança (e futuro sogro), chamado Abu Bakr (573-634) [em português, Abacar].

Batalha de BADR

A partir de sua terra nova, os muçulmanos agora queriam contra-atacar aqueles que os haviam perseguido. Eles começaram a conduzir ataques regulares, ou “Razzias”, a caravanas de comércio de Meca. Tecnicamente, estes ataques constituíam atos de guerra; a economia de Meca foi abalada, e eles decidiram acabar com os muçulmanos definitivamente. Os muçulmanos enfrentaram um ataque dos habitantes de Meca na Batalha de Badr (624), na qual 313 deles derrotaram um exército de cerca de 1.000 homens de Meca; alguns atribuem essa vitória à intervenção divina, e outros ao gênio militar de Maomé.

Após a vitória em Badr, os muçulmanos, mais do que apenas um grupo de seguidores de uma nova religião, tornaram-se uma força militar considerável. Vários enfrentamentos se seguiram entre os muçulmanos e outras tribos árabes, com grande êxito dos muçulmanos. No ano de 630, as portas de Meca, a cidade da qual eles haviam fugido em pânico uma década antes, foram abertas ao exército muçulmano. Meca estava agora nas mãos dos muçulmanos e, contra todas as expectativas, Maomé ofereceu anistia a todos aqueles que se rendessem e aceitassem sua fé.

Vista de Meca e da Mesquita Sagrada, em 1900

Quando morreu, em 632, Maomé era o líder político e religioso mais poderoso da Arábia. A maioria das tribos já havia se convertido ao Islamismo e a ele jurado lealdade. Ele morreu em sua própria casa, em Medina, e lá mesmo foi sepultado. O local depois foi convertido em uma tumba chamada de “Roza-e-Rasool” (Tumba do Profeta), que fica ao lado da famosa “Masjid al-Nabwi” (Mesquita do Profeta) em Medina, e é visitada por milhões de muçulmanos todos os anos. O acadêmico J.J. Saunders comenta sobre o Profeta do Islamismo em sua obra Uma história do Islã medieval:

Sua devoção era sincera e natural, e sua crença honesta na verdade de seu chamado só pode ser negada por aquele que estiver preparado para afirmar que um impostor suportou conscientemente por dez ou doze anos a ridicularização, o abuso e a privação, ganhou a confiança e o afeto de homens dignos e inteligentes, e desde então tem sido reverenciado por milhões como o principal instrumento da revelação de Deus ao homem. (34)

As revelações que afirma-se terem sido dadas a Maomé pelo anjo Gabriel foram memorizadas por seus seguidores e, poucos anos após sua morte, foram escritas como o Alcorão (“o ensinamento” ou “a declamação”), o sagrado livro do Islã.

Alcorão, Suna e Hádice

SUNA – Livro Sagrado

De acordo com os muçulmanos, os versos do Alcorão, ditados pelo anjo a Maomé, são as palavras de Deus e a revelação final da verdade divina à humanidade. Após a morte de Maomé, essas revelações foram compiladas na forma de um livro por seu sogro Abacar (que reinou entre 632 e 634 como o primeiro califa – o sucessor da missão e império do Profeta), a fim de preservá-las para gerações futuras. Durante a vida do Profeta, estas revelações haviam sido escritas individualmente em pergaminhos ou outros materiais, e depois foram organizadas na sequência ditada pelo Profeta para formar o Alcorão. Os muçulmanos memorizavam os versos e os declamavam (por isso, uma das traduções do Alcorão é “a declamação”). Mais tarde, notando-se que diferentes muçulmanos estavam recitando os versos em diferentes dialetos, um projeto de padronização foi realizado para preservar as palavras da mensagem do Profeta.

OS ADEPTOS AINDA SÃO ENCORAJADOS A APRENDER O ALCORÃO NO ORIGINAL.

Foi tomado um extremo cuidado para evitar qualquer adulteração do texto. Esta tarefa foi iniciada ainda com relutância pelo sucessor imediato do império de Maomé – o califa Abacar (que tinha receio de realizar algo que o Profeta não havia feito) e foi finalizada no reinado do terceiro califa – Uthman ibn Affan ([em português, Otomão], que reinou entre 644 e 656). Para os muçulmanos, o Alcorão só pode ser compreendido corretamente quando lido – ou ouvido – na língua original. Embora traduções precisas sejam consideradas aceitáveis ​​por certas seitas, os adeptos ainda são encorajados a aprender o Alcorão no original.

Depois do Alcorão, uma importante fonte de orientação para os muçulmanos é a vida do Profeta: seus caminhos (Suna) e seus ditos (Hádice); ambos atuam como um suplemento ao texto do Alcorão. O Alcorão é considerado a Palavra de Deus, como observado anteriormente, mas os muçulmanos também encontram segurança e orientação ao aprender como Maomé teria se comportado em certas situações e, para isso, a Suna e o Hádice são importantes.

Caligrafia de Abacar

Por exemplo, o Alcorão enfatiza repetidamente: “estabelecer a oração e pagar as esmolas”, mas pode-se perguntar, como? A resposta está na Suna e no Hádice, que deixam claro que se deve simplesmente fazer da maneira que o Profeta fez e agir como o Profeta instruiu. Na verdade, em muitos casos, o Alcorão declara: “Obedeça a Alá (Deus) e obedeça ao seu Profeta” (o que enfatiza a importância da Suna e do Hádice). O Hádice, assim como os versos do Alcorão, foi compilado, mas foi mantido separado do Alcorão, de novo para evitar qualquer tipo de adulteração das revelações divinas. A acadêmica Tamara Sonn explica a importância desses elementos em seu livro Islã – Uma breve história:

Sendo a palavra de Deus, ela (o Alcorão) é co-eterna com Deus… O público geral da escritura é a humanidade como um todo… Os muçulmanos acreditam que o Alcorão reitera, confirma e completa essas escrituras anteriores (Torá, Salmos e Evangelho), conclamando todas as pessoas a lembrar e respeitar as verdades nelas carregadas… Juntos, o Alcorão e o exemplo (chamado de Suna) dado pelo Profeta Maomé constituem a orientação de que os muçulmanos precisam em sua responsabilidade coletiva de estabelecer a justiça. (linhas citadas na página 2 e seguintes)

O Alcorão, portanto, fornece aos seguidores a Palavra de Deus, enquanto a Suna e o Hádice dão orientação sobre como alguém observa essa palavra e inclui seus preceitos na vida cotidiana.

Os pilares do Islamismo

Os atos de adoração no Islamismo, ou os “pilares” sobre os quais repousa sua fundação, são os deveres formais que todas as pessoas que o escolhem como seu caminho devem reconhecer e cumprir. Os Cinco Pilares do Islamismo são:

  • Shahada (testemunho)
  • Salat (oração cinco vezes ao dia)
  • Zakat (esmolas/tributos pagos para ajudar os outros)
  • Saum (jejum durante o Ramadã)
  • Haje (peregrinação a Meca pelo menos uma vez na vida)

O primeiro pilar – Shahada – é essencial para qualquer um se tornar muçulmano; é o reconhecimento da unidade de Alá (Deus) em todos os atributos, e é comumente expresso na frase: “Não há ninguém digno de adoração, exceto Alá (Deus), e Maomé é o Profeta de Alá”.

O conceito de Deus no Islamismo afirma que ele está além de todas as imaginações (o pronome “ele” é meramente uma conveniência para o nosso uso, e de forma alguma indica qualquer um de seus atributos) e é o ser mais supremo; seu é tudo o que há no universo, e tudo se submete à sua vontade; portanto, os seres humanos devem viver em paz. De fato, a palavra “Islã” significa literalmente “submissão”, isto é, submissão à vontade de Deus.

Nome de Alá em Caligrafia Árabe

O segundo pilar são as orações diárias – Salah – que devem ser oferecidas cinco vezes ao dia. Os homens são obrigados a oferecer essas orações em congregação em locais de culto islâmico especiais chamados Masjid (as mesquitas), enquanto as mulheres podem orar em casa. O projeto básico das mesquitas varia em cada lugar e, na maioria dos casos, muitos elementos da arquitetura local são nelas introduzidos (por exemplo, a Mesquita Azul de Istambul baseia-se em muitas características arquitetônicas da famosa catedral Hagia Sophia). As áreas de uma mesquita são divididas entre os fiéis masculinos e femininos, e entre os imãs que dirigem o culto de adoração.

O terceiro pilar – Zakat – é a doação de esmolas que devem ser pagas por todas as pessoas elegíveis (indivíduos que possuem uma certa quantidade de riqueza que não está atualmente em seu uso) uma vez por ano para companheiros muçulmanos desprivilegiados (embora outros atos de caridade sejam também aplicáveis para não-muçulmanos, o zakat é reservado apenas para os fiéis islâmicos). Os não-muçulmanos (conhecidos como dhimmi – pessoas protegidas) foram por muito tempo obrigados a contribuir com o imposto conhecido como jizya, mas essa política já foi abolida em muitos países muçulmanos desde o início do século XX.

Mesquita do Profeta em Medina, na Era Otomana

O quarto pilar – Saum – é o jejum durante o mês islâmico do Ramadã (o nono mês do calendário islâmico). Durante o período de jejum, o fiel deve se abster de comer, beber e de todos os prazeres mundanos, e devotar tempo e atenção a Deus. O Ramadã encoraja os fiéis a se aproximarem de Deus e a examinarem suas prioridades e valores na vida; privar-se de alimentação e outras distrações é algo voltado para o foco completo na atenção ao divino.

O quinto pilar – Haje – é a peregrinação anual à Ka’aba [Caaba], a Qiblah dos muçulmanos (a direção em que eles oram – em sinal de unidade) em Meca. A Haje só é obrigatória uma vez na vida de uma pessoa, e somente se ela puder pagar e tiver forças para fazer a jornada. Se não for possível ir, deve-se pelo menos expressar o desejo sincero de fazê-lo e, se possível, contribuir para a peregrinação de outra pessoa.

Propagação do Islamismo

Como já observado, Meca foi a cidade que originalmente rejeitou Maomé e sua mensagem, mas que, mais tarde, tornou-se o coração da fé (pois abriga a Caaba), enquanto Medina, a cidade que acolheu o Profeta quando ninguém mais o fez, tornou-se a capital do império. A Arábia se encontrava na encruzilhada do Império Persa Sassânida (224-651) e do Império Bizantino (330-1453). Como essas duas superpotências estavam quase constantemente em guerra, com o tempo, o povo da Arábia sofreu com a perturbação da região ao seu redor e, uma vez unida sob a fé islâmica, lançou uma invasão em grande escala sobre ambos os impérios para viabilizar a expansão do Islamismo. O acadêmico Robin Doak explica em seu livro O império do mundo islâmico:

Os bizantinos competiam pelo controle do Oriente Médio. O Império Sassânida, ou persa, dominava áreas a sudeste de Bizâncio (atual Istambul). Estes dois impérios estavam constantemente em guerra entre si… Para pagar por estas guerras, os dois impérios impuseram pesados ​​impostos sobre os cidadãos sob seu controle. Estes impostos, junto a outras restrições, causaram inquietação nas terras sassânidas e bizantinas, especialmente entre as tribos árabes que viviam nas periferias dos dois impérios. (6)

Os árabes originalmente tinham uma natureza tribal e careciam de unidade. Essas tribos precisavam ser unidas em prol de estabilidade, e o Islamismo tornou-se o meio para tal. Após a morte do Profeta Maomé em 632, a liderança da Ummah (comunidade) muçulmana foi herdada por Abacar, que assumiu o título de califa (sucessor do Profeta). Em seu breve reinado de dois anos (632-634), ele uniu toda a Península Arábica sob a bandeira islâmica (já que a maioria das tribos abandonou a comunidade), e então enviou exércitos para expandir seu domínio sobre ainda outras tribos árabes, que viviam sob domínio bizantino e Sassânida. Estas campanhas foram tão rápidas e bem-sucedidas que, na época do terceiro califa, Otomão, todo o Egito, Síria, Levante e o que antes era a maior parte do Império Persa Sassânida agora estava nas mãos dos muçulmanos, e todas as tentativas de recuperar o território perdido foram derrotadas com a ajuda dos habitantes locais, que em sua maioria aceitaram o domínio muçulmano.

O quarto e último dos “califas corretamente guiados” (como os primeiros quatro são chamados pelos muçulmanos sunitas), foi Ali ibn Abi Talib (reinou entre 656 e 661). Ali passou a maior parte de seu governo em constantes lutas civis e a expansão foi interrompida. Após sua morte, em 661, ele foi sucedido por Moáuia I (reinou entre 661 e 680), que fundou a Dinastia Omíada. Moáuia I declarou seu filho, Yazid I ([ou, Iázide I] reinou entre 680 a 683), seu sucessor, mas isso foi contestado pelo filho de Ali (neto de Maomé) Hussayn ibn Ali ([ou, Haçane ibne Ali] 626-680). O fraco exército de Hussayn foi derrotado na Batalha de Karbala em 680 pelas tropas de Yazid, na qual ele também foi morto; outras revoltas foram igualmente esmagadas uma a uma, e os califas da Dinastia Omíada continuaram a expansão militar.

Expansão dos Primeiros Califados Islâmicos

No final da Dinastia Omíada (em 750) haviam sido adicionadas ao império a Transoxiana, partes do atual Paquistão, todo o norte da África e a Península Ibérica (também conhecida como Al Andaluz – a terra dos vândalos). Durante o governo dos abássidas (750-1258), alguns ganhos territoriais menores foram feitos, mas a tendência de conquistas rápidas anteriores por meio de avanços militares acabou. Essa tendência foi revivida pelo Sultanato Otomano (1299-1922), que mais tarde adotou o título de Califado do Mundo Islâmico.

A Anatólia e o coração do Império Bizantino – Constantinopla – foram conquistados pelos otomanos em 1453, que então fecharam as rotas comerciais conhecidas como Rota da Seda (que eles então passaram a controlar), forçando as nações europeias a buscarem outras fontes para os bens aos quais haviam se acostumado, e assim lançando a chamada Era dos Descobrimentos, que fez as nações europeias zarparem seus navios para ao redor do planeta, assim “descobrindo” o chamado Novo Mundo. De acordo com alguns estudiosos, no entanto, o Novo Mundo já havia sido alcançado pelo explorador muçulmano chinês Zheng He (1371-1435) em 1421 (embora esta afirmação seja contestada). A Era dos Descobrimentos (também conhecida como Era das Explorações) abriu o mundo, para o bem e para o mal, levando povos de diversas culturas a terem contato uns com os outros em uma escala muito maior do que antes.

As conquistas militares dos otomanos também levaram à expansão do Império Islâmico, mas nesta altura a fé espalhou-se tanto pela conquista como pelo comércio, como é apontado por Ruthven e Nanji, no Atlas histórico do Islã:

O Islamismo expandiu-se por meio da conquista e da conversão. Embora por vezes seja dito que a fé islâmica foi espalhada pela espada, ambas não se confundem. O Koran (grafia arcaica para o Alcorão) afirma inequivocamente, [na Sura 2:256], “Não há coerção na religião”. (30)

Embora o Alcorão tenha vários versos contrários à conversão forçada, é inegável que o islamismo se espalhou inicialmente por meio das conquistas militares. A maioria das populações locais das terras recém-conquistadas aderia a suas crenças anteriores; algumas se converteram por livre decisão, mas também houve vários casos de conversões forçadas (o que, ironicamente, é considerado uma prática não-islâmica). No tempo dos otomanos, no entanto, foi sobretudo o comércio que levou a fé para além das fronteiras, pois muitos pregadores se misturavam às populações locais e estrangeiras, espalhando a fé por meio das excursões.

O Cisma Islâmico: Sunitas e Xiitas

Apesar disso, desde muito cedo o Islamismo não foi uma fé completamente unificada em toda sua extensão. Após a morte do Profeta Maomé em 632, seus seguidores se debateram sobre quem deveria sucedê-lo. Foi decidido, logo após a morte de Maomé, que Abacar deveria se tornar seu sucessor – seu califa. Outro grupo, porém, pressionou para que Ali, primo e genro do Profeta, o sucedesse. A vez de Ali de fato viria, como o quarto califa, mas seus seguidores – Shia’t Ali (adeptos de Ali) afirmaram que ele era o sucessor legítimo de Maomé e, mais tarde, afirmariam que seus três califas predecessores eram, na verdade, usurpadores; estes seguidores de Ali são os muçulmanos xiitas.

A maioria dos muçulmanos, no entanto, afirmava que Abacar, Umar ibn al-Khattab ([em português, Omar] que reinou entre 634 e 644) e Otomão eram sucessores legítimos de Maomé, como Ali, e os consideram legítimos; esses muçulmanos são conhecidos como sunitas (seguidores da Suna, ou, do caminho de Maomé). Inicialmente, ambos eram grupos meramente políticos, mas depois se transformaram em diferenças religiosas.

Batalha de Karbala

As crenças básicas destas seitas são quase idênticas, com a exceção central sendo o conceito dos imãs. Os sunitas consideram os imãs os guias, ou, professores, que orientam os muçulmanos ao longo do caminho do Islamismo (e é a pessoa que lidera a congregação durante as orações), sendo o mais famoso deles o Imã Abu Hanifa – fundador da escola Hanafi de pensamento islâmico sunita. Por outro lado, os xiitas consideram os imãs como um elo de ligação entre Deus e os humanos (um semidivino), e consideram dignos deste título apenas os descendentes de Maomé por parte de Ali e Fátima (filha do Profeta), e posteriormente apenas os descendentes de Ali (com outras esposas), como o Imã Hussayn [ou, Huceine], filho de Ali, que foi morto pelo exército Omíada na Batalha de Karbala em 680.

A perda de Huceine é lamentada pelos muçulmanos xiitas anualmente no festival de Ashura, que é criticado por muçulmanos sunitas que rejeitam as reivindicações xiitas sobre o papel do imã e, embora respeitem Huceine e considerem trágica sua morte, eles não o consideram como semidivino, como fazem os xiitas.

À parte esta divisão, e algumas outras diferenças teológicas, as duas seitas são quase iguais; mesmo assim, seus adeptos têm sido rivais por quase todo o tempo que existiram, como exemplificado pela rivalidade entre a Dinastia Abássida Sunita (Os Abássidas foram uma dinastia árabe que governou a maior parte do Império Islâmico (exceto algumas partes orientais) depois de assumir o califado em 750. Posteriormente, seu império se fragmentou, mas, como califas, eles retiveram supremacia espiritual até 1258. Eles assumiram o título de califa depois de expulsarem a Dinastia Omíada, que governava até então. Assim, eles foram a segunda dinastia que serviu como Califado (632-1924, intermitentemente) e os Fatímidas Xiitas, e entre os Otomanos Sunitas e os Safávidas Xiitas, etc.

O Legado do Islamismo

Apesar do recurso precoce à conquista para espalhar a fé, e da violência sectária que persistiu entre sunitas e xiitas, o Islamismo contribuiu muito para a cultura mundial desde seu nascimento. O renascimento europeu nunca teria acontecido se as obras dos eruditos clássicos romanos e gregos não tivessem sido preservadas pelos muçulmanos. Para citar apenas um exemplo, as obras de Aristóteles – tão fundamentais para desenvolvimentos posteriores em tantas disciplinas – teriam se perdido se não tivessem sido preservadas e copiadas por escribas muçulmanos. As obras do polímata muçulmano Avicena (c. 980-1037) e do erudito Averróis (1126-1198) não apenas preservaram a obra de Aristóteles, mas a sofisticaram por meio de seus comentários brilhantes e, portanto, eles espalharam o pensamento aristotélico por meio de suas próprias obras. Avicena escreveu o primeiro livro coletivo sobre medicina – o Al- Qanun fi-al-Tib (Cânone de Medicina), que era muito mais preciso do que os textos europeus sobre o assunto na época.

Al-Khwarizmi (c. 780-850), o brilhante astrônomo, geógrafo e matemático, desenvolveu a álgebra, e Al-Khazini (século XI) desafiou e encorajou modificações no modelo ptolomaico do universo. O café, provavelmente a bebida mais popular do mundo hoje, foi desenvolvido por monges sufistas muçulmanos no Iêmen no século XV, e foi apresentado ao mundo por meio do porto de Mocha, no Iêmen (associando assim a palavra “mocha” ao café). Estudiosos, poetas, escritores e artesãos islâmicos contribuíram para o desenvolvimento de praticamente todas as áreas da cultura mundial e continuam a fazê-lo nos dias de hoje. É lamentável que atualmente, no mundo ocidental, o Islamismo seja frequentemente associado à violência e ao terrorismo, porque em sua essência o Islã é uma religião de paz e compreensão. Os muçulmanos ao redor do mundo, constituindo um terço da população mundial, seguem – ou pelo menos tentam seguir – o caminho da paz que Maomé os revelou há 14 séculos, e seu legado de compaixão e dedicação ao divino e ao bem maior continua até hoje na forma de seus seguidores.

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