O Corvo – Edgar Allan Poe

CLAUDIO WEBER ABRAMO diz: “O Corvo” está entre as obras mais traduzidas da história da literatura, dado o fascínio que exerce em leitores e escritores e apesar dos obstáculos que oferece à tradução. Existem importantes traduções para o português até o presente — e outras línguas neolatinas — , incluindo as de Machado de Assis, Fernando Pessoa e Baudelaire.”

Uma das mais importantes e mais conhecidas obras de Edgar Allan Poe, foi, sem dúvida nenhuma o poema The Raven. Depois de tê-lo escrito e vendido por U$15 em 1845, ele então escreveu o ensaio The Philosophy of Composition (A Filosofia da Composição), primeiramente publicada em 1.846 pela Graham´s Magazine, onde ele descreve minuciosamente os passos que seguiu para compor o poema The Raven, afirmando que “nenhum detalhe de sua composição pode ser atribuído a acidente ou intuição – que o trabalho foi realizado passo a passo, até o final, com a precisão e a rígida conseqüência de um problema matemático” (POE, 2008, p. 20). Isto posto, Poe afirma que sua obra foi pensada rigorosamente passo a passo, tal como um exercício matemático e não resultado da intuição ou inspiração poética.

 The Raven foi publicado pela primeira vez em janeiro de 1.845 no New York Evening Mirror, e é notável pela musicalidade, pela métrica exata, rimas internas e combinações fonéticas, a temática é típica do Romantismo, ou até do Ultrarromantismo e mostra a inexorabilidade da morte (através do corvo) e seu impacto sobre o personagem, que lamenta profundamente a morte da amada Leonora.

O Corvo possui 108 versos. Existe também a questão da escolha de Poe do efeito a ser causado, optando pela beleza em O Corvo, para tornar seu “trabalho universalmente apreciável”. Escolhendo então a Beleza como efeito, seu próximo passo foi a escolha do tom, e o autor preferiu a tristeza, optando então pela morte de uma bela mulher: “a morte de uma bela mulher é o tópico mais poético do mundo”.

O CORVO (tradução de Machado de Assis)

Em certo dia, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
“É alguém que me bate à porta de mansinho;

Há de ser isso e nada mais“.

Ah! bem me lembro! bem me lembro! 
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o colchão refletia
A sua última agonia.
Eu ansioso pelo Sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora,

E que ninguém chamará mais.

E o rumor triste, vago, brando 
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui, no peito,
Levantei-me de pronto, e “Com efeito,
(Disse), é visita amiga e retardada
“Que bate a estas horas tais.
“É visita que pede à minha porta entrada:

Há de ser isso e nada mais“.

Minh’alma então sentiu-se forte; 
Não mais vacilo, e desta sorte
Falo: “Imploro de vós – ou senhor ou senhora,
Me desculpeis tanta demora.
“Mas como eu, precisando de descanso
“Já cochilava, e tão de manso e manso,
“Batestes, não fui logo, prestemente,
“Certificar-me que aí estais”.
Disse; a porta escancar, acho a noite somente,

somente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra 
Que me amedronta, que me assombra.
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, com um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;

Foi isso apenas, nada mais.

Entro co’a alma incendiada. 
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
“Seguramente, há na janela
Älguma coisa que sussurra. Abramos,
“Eia, fora o temor, eia, vejamos
“A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais,
“Devolvamos a paz ao coração medroso,

Obra do vento, e nada mais“.

Abro a janela, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
de um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta em um busto de Palas:

 Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura, 
Naquela rígida postura,
Com o gosto severo, – o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: “Ó tu que das noturnas plagas
“Vens, embora a cabeça nua tragas,
“Sem topete, não és ave medrosa,
“Dize os teus nomes senhoriais;
“Como te chamas tu na grande noite umbrosa?”

E o corvo disse: “Nunca mais“.

Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que eu lhe fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Coisa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta a dizer em resposta

Que este é seu nome: “Nunca mais“.

No entanto, o corvo solitário 
Não teve outro vocabulário.
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda sua alma resumisse,
Nenhuma outra proferiu, nenhuma.
Não chegou a mecher uma só pluma,
Até que eu murmurei: “Perdi outrora
“Tantos amigos tão leais!
“Perderei também este em regressando a aurora”.

E o corvo disse: “Nunca mais!

Estremeço. A resposta ouvida 
É tão exata! é tão cabida!
“Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
“Que ele trouxe da convivência
“De algum mestre infeliz e acabrunhado
“Que o implacável destino há castigado
“Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
“Que dos seus cantos usuais
“Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,

Esse estribilho: “Nunca mais.

Segunda vez nesse momento
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
E, mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera,
Achar procuro a lúgubre quimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo

Grasnando a frase: “Nunca mais”.

Assim pôsto, devaneando,
Meditando, conjeturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava.
Conjeturando fui, tranqüilo, a gosto,
Com a cabeça no macio encosto
Onde os raios da Lâmpada caíam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam

E agora não se esparzem mais.

Supus então que o ar, mais denso, 
Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível:
E eu exclamei então: “Um Deus sensível
“Manda repouso à dor que te devora
“Destas saudades imortais.
“Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora”.

E o corvo disse: “Nunca mais”.

“Profeta, ou o que quer que sejas! 
“Ave ou demônio que negrejas!
“Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
“Onde reside o mal eterno,
“Ou simplesmente náufrago escapado
“Venhas do temporal que te há lançado
“Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
“Tem os seus lares triunfais,
“Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?”

E o corvo disse: “Nunca mais”.

“Profeta, ou o que quer que sejas! 
“Ave ou demônio que negrejas!
“Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
“Por esse céu que além se estende,
“Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
“Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
“No Éden celeste a virgem que ela chora
“Nestes retiros sepulcrais,
“Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!”

E o corvo disse: “Nunca mais!”

“Ave ou demônio que negrejas! 
“Profeta, ou o que quer que sejas!
“Cessa, ai, cessa! (clamei, levantando-me) cessa!
“Regressando ao temporal, regressa
“À tua noite, deixa-me comigo…
“Vai-te, não fique no meu casto abrigo
“Pluma que lembre essa mentira tua.
“Tira-me ao peito essas fatais
“Garras que abrindo vão a minha dor já crua”

E o corvo disse: “Nunca mais”.

E o corvo aí fica; ei-lo trepado 
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora

Não sai mais, nunca, nunca mais!

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