Essa cantata muito conhecida pelo público por conta de sua grande utilização em filmes ou em comerciais na TV, tem uma história curiosa. Carmina na realidade é o plural de Carmem, que em latim vulgar significa canções, já Burana vem por conta de onde as letras dessa obra-prima foram encontradas, num velho mosteiro chamado Benediktbeuren na Alemanha. Tais poemas eram do século XIII, ou seja, o alemão e várias línguas ainda não tinham se solidificado, sendo assim, os poemas estavam escrito numa espécie de mistura entre um alemão arcaico, francês, grego e latim.
Os carmina burana (do latim carmen,ìnis ‘canto, cantiga; e bura(m), em latim vulgar ‘pano grosseiro de lã’, geralmente escura; por metonímia, designa o hábito de frade ou freira feito com esse tecido) são textos poéticos contidos em um importante manuscrito do século XIII, o Codex Latinus Monacensis, encontrados durante a secularização de 1803, no convento de Benediktbeuern – a antiga Bura Sancti Benedicti, fundada por volta de 740 por São Bonifácio, nas proximidades de Bad Tölz, na Alta Baviera. O códex compreende 315 composições poéticas, em 112 folhas de pergaminho, decoradas com miniaturas. Atualmente o manuscrito encontra-se na Biblioteca Nacional de Munique.
Carl Orff, descendente de uma antiga família de eruditos e militares de Munique, teve acesso a esse códex de poesia medieval e arranjou alguns dos poemas em canções seculares para solistas e coro, “acompanhados de instrumentos e imagens mágicas”.
O códice
O códice encontrado em Benediktbeuern continha poemas dos monges e eruditos errantes — os goliardos —, quase todos escritos em latim medieval, exceto 47 versos, escritos em médio-alto-alemão vernacular e vestígios de frâncico. Um estudioso de dialetos, Johann Andreas Schmeller, publicou a coleção em 1847, dando-lhe o título de “Carmina Burana”, que, em latim, significa “Canções de Benediktbeuern”.
Acredita-se que todos os poemas fossem destinados ao canto mas os copistas responsáveis pelo manuscrito, nele não indicaram a música de todos os carmes, de modo que só foi possível reconstruir o andamento melódico de 47 deles. O códex é subdividido em seis partes:
- –Carmina moralia et satirica (1-55), de caráter satírico e moral;
- –Carmina veris et amoris (56-186), cantos primaveris e de amor;
- –Carmina lusorum et potatorum (187-228), cantos orgiásticos e festivos;
- –Carmina divina, de conteúdo moralístico-sacro (parte que provavelmente foi adicionada já no início do século XIV).
- –Ludi, jogos religiosos.
- –Supplementum, suplemento com diferentes versões dos carmina.
Os textos são muito diferentes entre si e mostram a diversidade da produção goliardesca. Se, de um lado, há os conhecidos hinos orgiásticos, as canções de amor de alto conteúdo erótico e as paródias blasfemas da liturgia, de outro emergem a recusa moralística da riqueza e a veemente condenação à Cúria Romana, por ser voltada apenas à busca do poder. Assim diz o carme n°. 10:
A morte agora reina sobre os prelados que não querem administrar os sacramentos sem obter recompensas (…) São ladrões, não apóstolos, e destroem a lei do Senhor.
E o carme n°. 11:
Sobre a terra nestes tempos, o dinheiro é rei absoluto (…) A venal cúria papal é cada vez mais ávida dele. Ele impera nas celas dos abades e a multidão de priores, com as suas capas negras, só a ele louva.
Os versos mostram que os chamados clerici vagantes não se dedicavam somente ao vício, mas que se inseriam entre os adversários do crescente mundanismo da Igreja e da conformação monárquica do Papado, ao mesmo tempo que defendiam uma ideologia progressista, distante da clausura da vida monástica.
Além disso, a variedade de conteúdos do manuscrito é também indiscutivelmente atribuída ao fato de que os vários carmina tenham autores diferentes, cada um com seu próprio caráter, as próprias inclinações e provavelmente a própria ideologia, não se tratando de um movimento cultural literário compacto e homogêneo no sentido moderno do termo.
Os textos originais são entremeados por notas morais e didáticas, como se usava no primeiro Medievo, e a variedade dos assuntos – especialmente de natureza religiosa e amorosa, mas também profana e licenciosa – e de línguas adotadas, expressa o estilo de vida e o pensamento dos autores, os clerici vagantes ou goliardos, que costumavam deslocar-se pelas várias universidades europeias nascentes, assimilando-lhes o espírito mais concreto e terreno.
A cantata
O compositor alemão Carl Orff musicou alguns dos Carmina Burana, compondo uma cantata homônima. Com o subtítulo “Cantiones profanae cantoribus et choris cantandae”, a obra, por suas características, pode ser definida também como uma “cantata cênica”. Estreou em junho de 1937, em Frankfurt e faz parte da trilogia “Trionfi” que Orff compôs em diferentes períodos, e que compreende os “Catulli carmina” (1943) e o “Trionfo di Afrodite” (1952).
A cantata é emoldurada por um símbolo da Antiguidade — a roda da fortuna, eternamente girando, trazendo alternadamente boa e má sorte. É uma parábola da vida humana exposta a constante mudança, mas não apresenta uma trama precisa.
Orff optou por compor uma música inteiramente nova, embora no manuscrito original existissem alguns traços musicais para alguns trechos. Requer três solistas (uma soprano, um tenor e um barítono), dois coros (um dos quais de vozes brancas), pantomimos, bailarinos e uma grande orquestra (Orff compôs também uma segunda versão, na qual a orquestra é substituída por dois pianos e percussão).
A obra é estruturada em prólogo e duas partes. No prólogo há uma invocação à deusa Fortuna na qual desfilam vários personagens emblemáticos dos vários destinos individuais. Na primeira parte se celebra o encontro do Homem com a Natureza, particularmente o despertar da primavera – “Veris laeta facies” ou a alegria da primavera. Na segunda, “In taberna”, preponderam os cantos goliardescos que celebram as maravilhas do vinho e do amor(“Amor volat undique”), culminando com o coro de glorificação da bela jovem (“Ave, formosissima”). No final, repete-se o coro de invocação à Fortuna (“O Fortuna, velut luna”).
| Em latim | Em português |
| O Fortuna, | Ó Sorte, |
| Velut Luna | És como a Lua |
| Statu variabilis, | Mutável, |
| Semper crescis | Sempre aumentas |
| Aut decrescis; | Ou diminuis; |
| Vita detestabilis | A detestável vida |
| Nunc obdurat | Ora oprime |
| Et tunc curat | E ora cura |
| Ludo mentis aciem, | Para brincar com a mente; |
| Egestatem, | Miséria, |
| Potestatem | Poder, |
| Dissolvit ut glaciem. | Ela os funde como gelo. |
| Sors immanis | Sorte imensa |
| Et inanis, | E vazia, |
| Rota tu volubilis | Tu, roda volúvel |
| Status malus, | És má, |
| Vana salus | Vã é a felicidade |
| Semper dissolubilis, | Sempre dissolúvel, |
| Obumbrata | Nebulosa |
| Et velata | E velada |
| Michi quoque niteris; | Também a mim contagias; |
| Nunc per ludum | Agora por brincadeira |
| Dorsum nudum | O dorso nu |
| Fero tui sceleris. | Entrego à tua perversidade. |
| Sors salutis | A sorte na saúde |
| Et virtutis | E virtude |
| Michi nunc contraria | Agora me é contrária. |
| Est affectus | Dá |
| Et defectus | E tira |
| Semper in angaria. | Mantendo sempre escravizado |
| Hac in hora | Nesta hora |
| Sine mora | Sem demora |
| Corde pulsum tangite; | Tange a corda vibrante; |
| Quod per sortem | Porque a sorte |
| Sternit fortem, | Abate o forte, |
| Mecum omnes plangite! | Chorai todos comigo! |
– Fortuna é um falso cognato em latim para o português. Fortuna=Sorte, Fortunae=Riqueza Material.
Pra quem quiser ouvir essa fantástica canção:



































